Caio Pimenta celebra as quatro indicações de “O Agente Secreto” e aponta as principais surpresas e esnobadas do Oscar 2026.
ANTES DE TUDO, ‘O AGENTE SECRETO’
O cinema brasileiro vive um daqueles dias que entram para a história. Com quatro indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, O Agente Secreto não apenas retorna o Brasil ao centro da maior premiação do mundo, como supera o feito recente de Ainda Estou Aqui e iguala o recorde histórico de Cidade de Deus — com uma diferença fundamental: agora, o país chega diretamente à categoria máxima.
“Gente, o que a gente está vivendo não é normal.” A frase que publiquei no Twitter resume bem o sentimento desta manhã. Não se trata apenas de mais uma boa safra: trata-se de um momento raro, quase surreal, que dificilmente se repete em tão curto espaço de tempo.
Para se ter uma ideia da dimensão do feito, apenas dois países na história conseguiram emplacar, em anos consecutivos, filmes de língua não inglesa na categoria de Melhor Filme:
– A Suécia, nos anos 1970, com Os Emigrantes e Gritos e Sussurros;
– A França, recentemente, com Anatomia de uma Queda e Emilia Pérez.
Agora, o Brasil se junta a esse grupo seleto com Ainda Estou Aqui e, agora, O Agente Secreto. É um marco que projeta nosso cinema para um patamar inédito de reconhecimento internacional.
Mais do que números, há um simbolismo poderoso: ver uma produção brasileira ombreando com superproduções de Hollywood, disputando diretamente a principal categoria da noite, é algo que redefine a percepção do nosso cinema no mundo.
SURPRESA: ‘F1’ EM MELHOR FILME
A principal delas, sem dúvida, foi a presença de “F1” entre os indicados a Melhor Filme. Não que seja um filme ruim, mas, em uma safra tão rica de produções internacionais, sua inclusão soa questionável. Títulos como Foi Apenas um Acidente, A Hora do Mal ou mesmo Blue Moon pareciam opções artisticamente mais consistentes dentro do perfil da Academia.
Aqui, pesa claramente o fator industrial. A Fórmula 1 é um esporte global, com apelo internacional muito maior do que esportes estritamente americanos, o que provavelmente facilitou sua entrada. Ainda assim, é uma indicação que, no futuro, tende a soar deslocada diante da força da lista.
SURPRESA – KATE HUDSON EM MELHOR ATRIZ
Durante boa parte da temporada, Kate Hudson praticamente não figurava entre os favoritos. No entanto, nas últimas semanas, houve uma campanha intensa em Hollywood.
Como votante do Globo de Ouro, acompanhei de perto o crescimento dessa movimentação: sessões especiais, debates com grandes nomes como Demi Moore, eventos estratégicos e um claro aumento da presença do filme na imprensa especializada. Era o tipo de sinal que indica: “fique atento, esse nome está crescendo”.
A indicação, portanto, surpreende no retrospecto da temporada, mas não chega a ser um choque para quem observava o cenário recente.
SURPRESA – DELROY LINDO EM ATOR COADJUVANTE
Finalmente aconteceu a tão inesperada primeira – e tardia – indicação de Delroy Lindo ao Oscar. A estrela de Pecadores surpreendeu em uma lista que parecia definida, mas, ele surgiu como uma grata novidade.
A presença dele decorre de três fatores principais: a primeira se refere a ser um dos mais veteranos atores de Hollywood ainda sem presença na festa da Academia; pesou também o carinho dos votantes do Oscar por Pecadores, a obra recordista em indicações e, por fim, a esnobada dolorida em 2020 por Destacamento Blood, temporada em que Lindo era visto como nome certo, mas, terminou esnobado. Desta vez, não passou.
Surpresa – Elle Fanning em Atriz Coadjuvante
Quando Valor Sentimental passou a titubear durante a temporada de premiações fora do Actors Awards e derrotas no Globo de Ouro e Critics Choice, temeu-se que Elle Fanning corresse risco em Melhor Atriz Coadjuvante. A Academia, entretanto, resolveu ser mais bonzinho com a jovem estrela após tê-la esnobado no ano passado com Um Completo Desconhecido. Chega à primeira indicação ainda que sem chances de vitória diante do favoritismo de Teyana Taylor.
SURPRESA: ‘BLUE MOON’ EM MELHOR ROTEIRO ORIGINAL
Diga a verdade: quando veio Blue Moon em Roteiro Original no lugar de O Agente Secreto, o coração deu uma travada. Nas últimas semanas, o trabalho de Robert Kaplow parecia ter ficado para trás na concorrência com Kleber Mendonça Filho e Eva Victor, de Sorry, Baby. A preferência da Academia por longos diálogos e a complexidade com que constrói Lorenz Hart, uma figura ácida e frágil, acabou levando a escolha pouco ousada.
SURPRESA: ‘O AGENTE SECRETO’ EM DIREÇÃO DE CASTING
“O Agente Secreto” conseguiu a indicação mais surpreendente em Direção de Casting. Uma conquista e tanto para Gabriel Domingues e também para o maravilhoso elenco de Kleber Mendonça Filho. Isso inclui desde a elegância de Maria Fernanda Cândido passando pela dupla Rooney Vilela e Gabriel Leone ao delegado de Robério Diógenes e, claro, a maravilhosa Tânia Maria. Chances de vitórias são mínimas, mas, a vitória é estar presente.
SURPRESAS: FILMES FORA DO RADAR NAS CATEGORIAS TÉCNICAS
Melhor Maquiagem e Penteado historicamente sempre reserva filmes que estão completamente fora do radar da imprensa e especialistas. O Oscar 2026 não fugiu à regra: Kokuho e A Meia-Irmã Feia foram as novidades, tirando blockbusters pesados do caminho, entre eles, Wicked – Parte 2. Em Canção Original, a Academia foi ainda mais longe: quem esperava Ariana Grande, Cynthia Erivo, Ed Sheeran e Miley Cyrus se deparou com Nicholas Pike com Sweety Dreams of Joy, de Viva Verdi. Foi para derrubar todos os bolões. Por fim, Jurassic World não quis saber de Superman e conseguiu a indicação. A grande questão é saber: o que viram demais para indicá-lo desta vez? Talvez amem dinossauros…
DECEPÇÃO: PAUL MESCAL FORA DE COADJUVANTE E O BAIXO DESEMPENHO DE ‘HAMNET’
A vitória no Globo de Ouro de Melhor Filme de Drama deixou a impressão que Hamnet poderia ser o grande adversário de Uma Batalha Após a Outra. O panorama foi destruído na manhã desta quinta: o drama da Focus Features conseguiu oito indicações, bem abaixo das 11 esperadas. Para além da decepção da esnobada em Montagem, o mais duro golpe veio com a ausência de Paul Mescal em Ator Coadjuvante, perdendo espaço para Delroy Lindo.
DECEPÇÃO: CHASE INFINITI EM MELHOR ATRIZ
O domínio de Uma Batalha Após a Outra durante a temporada é tão nítido que a vaga de Chase Infiniti em Melhor Atriz era dada como certa. A Warner, entretanto, não notou o crescimento repentino de Kate Hudson e acabou sendo a esnobada mais sentida do filme no Oscar 2026 – a única categoria de atuação que o longa de Paul Thomas Anderson ficou de fora. Um grande erro do estúdio não a ter colocado em coadjuvante em que a indicação era mais do que certa.
DECEPÇÃO: ODESSA A´ZION EM COADJUVANTE
Outra ausência que surpreendeu foi a de Odessa A’Zion. Ela vinha em clara ascensão: indicação ao Actors Awards, forte presença na reta final da temporada e um desempenho amplamente elogiado. Quem assistiu à série I Love LA sabe do que ela é capaz. Era uma daquelas candidaturas que pareciam ganhar força no momento certo. Mas, no fim, ela acabou perdendo a vaga para Elle Fanning. Foi uma disputa apertada.
DECEPÇÃO: JESSE PLEMONS EM MELHOR ATOR
Jesse Plemons segue sendo visto como um coadjuvante e não ator principal. Isso explica a presença de Emma Stone em Melhor Atriz e dele esnobado em Melhor Ator. Chama atenção com Bugonia depende demais da dobradinha deles para conseguir trazer toda a tensão da trama. Logo, indicar um e deixar o outro de fora não faz o menor sentido.
‘Foi Apenas um Acidente’ em Melhor Filme
A ausência de Foi Apenas um Acidente em Melhor Filme e Direção é talvez a mais dolorosa entre os títulos internacionais. O filme de Jafar Panahi reunia todos os elementos de uma indicação clássica: prestígio em festivais, narrativa política forte e o peso histórico de seu autor. Chegou a janeiro como presença praticamente certa e terminou restrito apenas a Roteiro Original. Em um ano de abertura inédita, a Academia deixou escapar a chance de dar um passo ainda mais ousado.
DECEPÇÃO: Guillermo del Toro EM MELHOR DIREÇÃO
A ausência de Guillermo del Toro em Melhor Direção foi uma das grandes decepções da manhã. Mesmo com Frankenstein alcançando nove indicações, o filme acabou perdendo força justamente na categoria em que parecia mais sólido. Em uma disputa marcada pelo predomínio americano, Del Toro pagou o preço de uma lista apertada e de um desempenho geral inferior ao de seus concorrentes diretos, perdendo a vaga para Josh Safdie.
DECEPÇÃO: ‘O AGENTE SECRETO’ E ‘SORRY, BABY’ EM ROTEIRO ORIGINAL
A categoria de Roteiro Original terminou como um dos grandes anticlímax do dia. Havia espaço claro para O Agente Secreto, em uma vaga que poderia coroar o trabalho de Kleber Mendonça Filho, mas a Academia optou por escolhas mais conservadoras. A maior frustração, porém, foi a ausência de Sorry, Baby, mesmo após a forte campanha simbólica impulsionada por Julia Roberts no Globo de Ouro. Dois dos roteiros mais ousados e interessantes da temporada ficaram de fora.
DECEPÇÃO: ‘APOCALIPSE NOS TRÓPICOS’ FORA DE DOCUMENTÁRIO
A exclusão de Apocalipse nos Trópicos da disputa em Documentário é uma das mais sentidas para o Brasil. O filme de Petra Costa vinha forte, era amplamente citado nas previsões e parecia ter caminho aberto até a lista final. A Academia, no entanto, priorizou temas ligados à Rússia, ao sistema prisional e ao racismo nos Estados Unidos. Mesmo com o Brasil em evidência neste Oscar, aqui a vaga acabou não vindo.
DECEPÇÃO: A SINA DE PARK CHAN-WOOK NO OSCAR
A ausência de Park Chan-wook com A Única Saída soa como mais um capítulo de uma relação difícil com a Academia. Já havia acontecido com Oldboy e com Decisão de Partir, e agora se repete. Mesmo com um filme competitivo, o espaço acabou tomado por outras produções e pelo excesso de títulos da Neon na categoria. Impressiona como um dos grandes cineastas contemporâneos segue acumulando esnobadas históricas no Oscar.
DECEPÇÃO: ‘AVATAR’ PARADO EM CATEGORIAS TÉCNICAS
A trajetória de Avatar neste Oscar confirma um recado claro da Academia. Sem repetir o impacto cultural e crítico dos primeiros filmes, a franquia foi novamente confinada às categorias técnicas, longe de Melhor Filme. Mesmo com bilheterias bilionárias, ficou evidente que só um novo fenômeno absoluto recolocaria Cameron na disputa principal. Por ora, a mensagem é direta: efeitos visuais, sim; categoria máxima, só em condições muito excepcionais.
DECEPÇÃO: ‘WICKED – PARTE 2’ TOTALMENTE ESNOBADO
A exclusão total de Wicked – Parte 2 é, sem dúvida, uma das esnobadas mais chocantes do ano. Não entrar nem em design de produção, figurino ou maquiagem soa como um veredito severo demais para uma superprodução visualmente ambiciosa. Um ano após ser celebrada na cerimônia, a franquia foi simplesmente apagada do mapa do Oscar. Para quem imaginava um candidato forte, o choque foi inevitável.




























