A minissérie All Her Fault ganhou o debate público quando se fala sobre excesso de carga emocional das mães, no imparável, exaustivo e muitas vezes injusto ofício de cuidar.

Com o sequestro iminente de Milo, filho de Marissa, interpretada pela hipnotizante atuação de Sarah Snook (já vencedora do Critics Choice deste ano), a trama traz, explícita e implicitamente, o quão solitário pode ser o ofício materno.

Há algum tempo, em encontros de Psicologia, fala-se em declínio da função paterna. Trata-se de um lugar que deveria ser ocupado pelo pai ou por alguém que deveria exercer esta função. Mas, sim, tal função está frouxa. A mesma envolve participação, divisão de tarefas, responsabilidade, envolvimento.

Desde o primeiro episódio, vemos as trocas de olhares julgadores enquanto a busca por Milo acontece. Dakota Fanning, além de contribuir com suas sempre boas atuações, mostra como a maternidade pode ser sufocante. Prestes a fechar um negócio, ela recebe uma ligação do marido pedindo para que ela volte porque este não acha a mamadeira do filho Jacob.

É necessária muita ausência deste pai e até mesmo a mentira de que ele teria compromissos esportivos com amigos para simplesmente ficar no carro assistindo a vídeos do TikTok e tomando milk-shake, até ser flagrado pela esposa Jenny Kaminsky, para que esta finalmente decida olhar mais para si mesma e pôr um basta na relação unilateral.

Todos os personagens homens da série mentem. Colin, o amigo de Marissa, o namorado da sequestradora, os maridos, o policial. A desculpa é sempre a mesma: o que foi feito, foi feito pela família ou para ajudar. Mas vemos que as muitas mentiras da trama eram somente para benefício próprio.

Peter Irvine, interpretado por Jake Lacy, incorpora a personificação da hipocrisia. Além da ligação direta com o sequestro do próprio filho, boa parte das decisões foi autocentrada. Este esquiva-se de toda a responsabilidade possível. O discurso de que só queria proteger os irmãos acaba por prender as pessoas afetivamente a ele. Lugar que acaba por se tornar necessário e aprisionador. No início, a máscara de compreensão quase engana; cai quando ele acaba por verbalizar o que já estava engasgado: que Marissa deveria ter conferido a origem da mensagem que recebeu.

Há algumas pontas que não se fecham: depois de muito pensar, Marissa consegue dizer o que mais gosta em Milo: usá-lo como desculpa para ficar cada vez mais longe do marido. Após a confissão, nada acontece, nenhuma reação.

O espaço para o lugar que o neurodivergente deve ocupar é discreto, mas importante. Temos três personagens para acalorar a discussão: Milo, o filho do policial e a própria sequestradora, que até o final parecia ter mesmo algum distúrbio mental.

Para as revelações do mistério, oito episódios foram excessivos, com foco em histórias paralelas que servem para distrair do tema principal. Para se pensar que a culpa pode não ser da mãe, é muito necessária.