Existem muitos filmes recentes de amizade entre garotas no colegial ou naquela transição quando a pessoa ainda não é adulta, mas também já não é mais criança. Mesmo assim, este Extra Geography, exibido em Sundance 2026, se destaca: O filme de estreia da diretora Molly Manners – indicada ao Bafta pela série da Netflix Um Dia – não pode ser descrito como uma versão inglesa de um Fora de Série (2019) ou de um Bottoms (2023). Ele, assim como suas personagens, parece viver num mundinho à parte, e essa é a maior razão do seu encanto.

O longa conta a história de duas amigas, Flic e Minna (interpretadas pelas ótimas Marni Duggan e Galaxie Clear). Elas são alunas de uma escola britânica só para moças, são inseparáveis e parecem estar apaixonadas pela sua própria esperteza. Mas falta algo em suas vidas. Quando a escola começa a realizar uma montagem teatral de Sonho de Uma Noite de Verão, na qual vão poder contracenar e se relacionar com garotos, elas aproveitam a oportunidade. Elas também fazem um pacto, de se apaixonarem pela primeira pessoa que virem pela frente – e esta acaba sendo a desajeitada professora de geografia vivida por Alice Englert. Claro, esses dois eventos vão acabar tendo impacto sobre o relacionamento das jovens.

Manners divide a narrativa em atos, como se fosse uma peça. Por que? Bem, porque sim e adiciona ao charme e ao clima diferente da experiência. Extra Geography é um filme realmente curioso: uma comédia que vai ficando cada vez mais melancólica com o passar do tempo; um drama de amadurecimento que chega a umas conclusões inesperadas sobre suas protagonistas, e um conto espirituoso e agridoce sobre feminilidade e autodescoberta, com algumas piadinhas jogadas no meio. Diga-se, piadas no estilo britânico.

É um filme de planos estudados e algumas composições interessantes, num estilo “Wes Anderson light”, e conduzido pelas duas atrizes, que aparentam ter desenvolvido uma interação e uma química tão ricas que não parecem estar atuando. Duggan e Clear parecem estar em tão perfeita sincronia – uma das melhores cenas do filme é quando elas fazem os mesmos movimentos enquanto observam a professora – que o processo de separação, de “dessincronia” entre as duas personagens, acaba sendo a verdadeira fonte de tensão na narrativa.

Claro, há um clima “semi-erótico” entre as interações das duas personagens, e pelo menos um momento em que a narrativa parece indicar que há algo platônico e não resolvido entre as duas meninas espertinhas que não conhecem a vida ou o mundo adulto no qual estão adentrando. Mas o toque sutil da diretora deixa isso no ar, e ficamos com a sensação triste de passagem do tempo e amizades que se modificam ao final da sessão. Extra Geography faz você rir em algumas cenas, ficar triste em outras, e na maior parte do tempo se sentir fascinado por mergulhar num mundinho e num filme que parecem ter saído de alguma cápsula do tempo por aí. Se você embarcar no estado de espírito do longa, deve se divertir.  

Autor

  • Ivanildo Pereira

    Jornalista, professor de cinema em cursos pelo Cine Set e crítico associado à Abraccine. Começou a escrever sobre cinema após fazer o curso Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográfica, do crítico Pablo Villaça. Literatura, música e cinema são seus maiores interesses.

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