Alerta de spoilers!
Pode-se dizer que o terceiro capítulo de “O Cavaleiro dos Sete Reinos” é focado em Egg (Dexter Sol Ansell), mas também em evidenciar a parceria entre escudeiro e cavaleiro sobre a perspectiva do menino careca. Para os fãs órfãos de abertura, temos o protótipo de uma. Forjada de forma mais simplista do que as anteriores, revela não apenas a quebra com as narrativas que já conhecemos, mas também a própria simplicidade com a qual Iran Parker guia essa trama.
Egg levanta cedo para cuidar do cavalo de Dunk (Peter Claffey) e o momento nos revela elementos sobre a personalidade do garoto e também sobre a construção social que envolve cavaleiro e escudeiro. Por um lado, tudo que Dunk possui é seu cavalo e a companhia do garoto, logo o episódio o assombra em relação a perca do torneio e, consequentemente, de tudo o que possui. Por outro ângulo, Egg, como a figura central de “O Escudeiro”, se apropria da narrativa para si. Li essa semana no X que a única coisa que a série não podia errar era na escalação do garoto e o episódio evidencia como Ansell está perfeito no papel do pequeno escudeiro.
Mais uma vez, também, o roteiro de Parker mostra como a dupla se sintoniza pela complementaridade. Egg, como uma criança muito esperta, também não leva desaforo para casa, algo que é nítido na sua conversa com Robyn Rhysling, o cavaleiro maluco. O momento acena diretamente para o Dunk do primeiro episódio que afirma tentar se encolher no meio da multidão e passar despercebido. Egg não busca o mesmo que o cavaleiro andante, de certa maneira, no entanto, é como se a grandeza naturalmente viesse até ele.
Ainda sobre o diálogo com o chamado cavaleiro maluco, é interessante como a fé dos sete e os costumes ândalos são introduzidos nesse episódio. Até aqui, não vimos nenhum septão ou meistre pelas barracas de Vaufreixo, mas somos induzidos a refletir sobre como o Guerreiro é uma figura mítica entre o grupo que protagoniza a série do universo de Game of Thrones. Curiosamente, o roteiro também o coloca sob uma perspectiva da Idade Média, atrelada ao fanatismo e a fé cega em uma divindade.
Voltando a Egg, o episódio acerta quando nos entrega mais momentos de convivência entre a dupla protagonista e também nas inúmeras pistas deixadas sobre a verdadeira identidade do menino. O roteiro atrelado a direção são eficazes em deixar pequenas e óbvias dicas sobre a linhagem da criança, seja por meio da música que ele entoa ou de falas interrompidas com movimentos de câmera em sua direção e até mesmo na reflexão de ambos sobre suas relações particulares com os pais biológicos. Enquanto Dunk tem uma clara visão sobre seu progenitor, Egg não esconde como o seu lhe é uma figura desconhecida.
Agora que sabemos a real identidade do garoto, é sintomático que o episódio foque em pequenos momentos e interações da Casa Targaryen. A começar pela música que parece apresentar Baelor Quebra-lanças (Bertie Marvel), mas, na verdade, fala sobre as consequências do reinado e raparigagem de Aegon IV — neto de Rhaenyra.
Aerion Targaryen (Finn Bennet) também é uma figura de projeção neste capítulo. Egg nutre uma verdadeira repulsa por ele, que se estampa nas lágrimas e na revolta após a justa, mas ele não é o único a partilhar desse sentimento. Basta reparar no olhar, de que nada mudaria o temperamento do rapaz, lhe dado por Baelor antes da justa e também no comportamento de Valarr (Oscar Morgan) diante da sua falsa ameaça de desafiá-lo. A sensação que tenho é que se houvesse mais interação entre pai e filho, o filho de Maekkar (Sam Spruell) deveria ser um dos tópicos da conversa.
A arrogância e a soberba de Aerion Chamaviva são interessantes de acompanhar, uma vez que trazem uma mescla da crueldade dos antigos domadores de dragão, ao mesmo tempo em que não há nada que os diferencie dos outros nobres. Nesse sentido, há um pouco de Viserys — irmão de Daenerys — no personagem. Imagino que as características que citei seriam facilmente encontradas no irmão da Nascida da Tormenta se ele tivesse recebido os mesmos cuidados e atenções que o Chamaviva detém.
Seu comportamento nas justas e a reação do público nos entrega também algo que está oculto, mas no coração de “O Cavaleiro dos Sete Reinos”: o povo. Uma coisa que me diverte bastante e me entristece acompanhando a série é porque ela realmente leva a reflexão sobre a falta de oportunidade que algumas pessoas possuem e a diferença gritante entre classes que domina Westeros e a vida real. A cada vez que Lyonel Baratheon (Daniel Ings) e os outros nobres aparecem festejando e bebendo, o abismo social e a futilidade da nobreza ficam estampados para nós. E aí, entra como Martin e Parker trabalham isso na produção: escancarando, mas nunca apontando o dedo na cara igual BBB.
Duncan e Tanselle (Tanzyn Crawford), por exemplo, são os mais altos do elenco, porem estão no nível inferior a todos os outros personagens, uma vez que não conseguem se equilibrar socialmente, economicamente e intelectualmente. Na mesma esfera, Lyonel é fútil e sempre traz alguma questão alívio cômico e visual, mas nada denso. Egg surge sempre como um contraponto a todos os outros personagens; ele mente, obviamente, mas embora pertença ao mesmo grupo socioeconômico de Lyonel e Aerion, ele não compartilha dos mesmos ideais, pensamentos e atitudes; a prova disso é que ele vê honra mesmo nas histórias mais desonrosas. Dito isto, discordo da vidente sobre o futuro dele — mas isso já é conversa de alguém que gosta de ler e estudar o universo westerosi.
Mais uma vez quero destacar o trabalho da direção. Tudo o que acontece nesse episódio está nos encaminhando para o embate entre Aerion — o vilão — e Dunk — o herói —, mas especialmente para a revelação que esse confronto traz. Tudo é feito de forma muito amarrada, sútil e leve. Mesmo no momento da revelação, a direção assume uma postura elegante que sustenta o choque, mas não se entrega completamente a ele, deixando o sabor de que agora todas as engrenagens se encontraram. Eu gosto, porque, além de tudo isso, mostra como a criança é mais sábia que o irmão mais velho, ou, melhor posto, que o verdadeiro antagonista de Aerion é Egg e não Dunk.
O que esse episódio mais uma vez faz é jogar na nossa cara a genialidade de Martin e como O Cavaleiro dos Sete Reinos é “absolute Game of Thrones” — antes de D&D estragarem tudo. Se eu fosse Ryan Condal, pegava uma carona com Iran Parker.















