Haru é uma mulher cheia de imaginação e que participa de concursos de dança em Tóquio, com seu marido. Quando uma tragédia ocorre, ela se afasta da vida e das amigas. No entanto, ela acaba sendo convencida a se inscrever numa nova escola de dança e, instantaneamente, acaba se apaixonando pelo professor latino bonitão – e que já participou da Dança dos Famosos, segundo suas amigas. 

O professor diz que vive um relacionamento aberto com sua esposa, então o que pode dar errado e impedir Haru de aproveitar essa nova paixão? Bem, tem alguns impedimentos, como o homem vestido de pássaro preto gigante que a visita às noites. Ou suas próprias fantasias e sonhos, que a levam a cometer uns atos malucos.

Estrelado pela sempre ótima Rinko Kikuchi, aqui com um penteado afro divino, Ha-Chan, Shake Your Booty! é uma comédia dramática, e com toques musicais, do diretor Joseph Kobota Wladyka e provavelmente é o longa mais divertido do Festival de Sundance 2026. É uma diversão excêntrica, com personagens incomuns, cenas e elementos visuais bizarros – cada novo capítulo da história é anunciado por uma voz de narrador em inglês e depois em japonês – e números musicais criativos. O filme tem momentos em que o espectador ri alto, e deverá fazer sucesso quando for lançado para o grande público.

Ainda assim, esse filme curioso tem um centro bem triste: O roteiro de Wladyka – que segundo uma dedicatória ao final, parece ser uma homenagem à sua mãe – trabalha a questão do luto, curiosamente às vezes para criar situações engraçadas. Apesar do subtexto pesado, o tom do filme é leve, e para dizer a verdade a metáfora da dança como forma de voltar a viver após um período difícil é bem batida. Mas ainda assim o filme funciona, graças à excentricidade das suas cenas e à atuação encantadora de Kikuchi.

Wladyka, que antes dirigiu filmes e episódios de Narcos da Netflix, parece deixar claras as suas inspirações – nos cenários, aparecem pôsteres japoneses de Embriagado de Amor (2002) e All That Jazz: O Show Deve Continuar (1979), e há também uma cena referenciando Dirty Dancing (1987). E é um filme que parece concentrado exclusivamente nos sentimentos: em nenhum momento vemos Haru trabalhando ou descobrimos como ela ganha a vida. Para a história, só importa a dança e a vida interior da personagem, que possibilita à história incluir seus momentos surreais.

E ao final da sessão, o espectador fica com um sorriso no rosto ao acompanhar essa personagem, uma mulher de meia-idade que passa por uns momentos estranhos e faz algumas descobertas sobre si mesma. É um filme sobre vida, amor e luto, e como essas coisas se misturam, e que ainda dá vontade de bater o pé no chão em algumas cenas. É uma pequena joia que com certeza vai ser descoberta.