As séries da Marvel sempre tiveram dificuldades para emplacar o formato ideal. Com a enxurrada de conteúdos promovidos pela Disney+, estas obras careciam de personagens e histórias que despertassem o interesse do público em meio a tantos conteúdos de super heróis. Nesse contexto, Magnum surge como um respiro agradável, usando a temática heróica como pano de fundo para abordar com leveza a indústria americana de entretenimento.
Embora explorar os bastidores de Hollywood não seja algo novo como provam A Franquia (2024) e O Estúdio (2025-), Magnum faz isso dentro do universo cinematográfico da Marvel. Por isso, a série adota um ar mais independente e quebra as convenções do MCU, focando em uma história mais pessoal, sem um vilão super poderoso ou grandes cenas de ação,. Isso a torna mais palatável para o público geral, superando resistências daqueles com preconceito com o gênero.
A metalinguagem tem um caráter mais suave e orgânico dentro do roteiro, com referências, citações e participações pontuais, seja com a participação especial Josh Gad ora uma menções a filmes e séries como Crepúsculo até referências visuais a clássicos como Perdidos na Noite, de 1969. A narrativa encaixa bem e equilibra as informações, sem cair no exagero. A imprensa também é alvo de críticas em relação sensacionalismo e o assassinato de reputação.
Entretanto, essa leveza também impede de o texto ser mais contundente em certos temas, como a função dos remakes, a criatividade no cinema, a saturação do gênero de super herói ou até mesmo a questão da mudança de etnia de um personagem, ponto muito sensível e responsável por debates bem divisivos. Magnum foge dessas polêmicas com medo de gerar uma recepção negativa, deixando passar ótimas oportunidades de desenvolver esses pontos.
Além disso, em seu âmago, a série é sobre a dádiva do ofício do ator, da busca pela notoriedade do trabalho e também da sensibilidade de dar vida à um personagem. A arte respira dentro de Magnum através da dupla de protagonistas. O primeiro episódio sintetiza muito bem o que a série é, com a primeira cena de Simon atuando e a sua dedicação pela profissão em que, mesmo com um papel pequeno, ele é empenhado em dar mais propósito a ele.
O elemento de super herói inserido na trama, ou seja, os poderes de Simon, de Yahya Abdul-Mateen II, são uma metáfora ao seu estado emocional, do seu temor em não ter êxito na carreira, de não orgulhar a família e também o medo de ser impedido de exercer a vocação de ator, do seu sonho de interpretar o herói de infância. Seu arco narrativo é bem delimitado, do ator destemido que procura chance em meio a um mundo competitivo e voraz, dosando bem o drama e o lado amistoso de seu personagem.
Através do personagem Trevor, de Ben Kingsley, o roteiro trabalha o peso do fracasso e da estigmatização de um papel e o quanto isso mexe com o estado psicológico do ator. Seu personagem é experiente e malandro, mas de bom coração e a dinâmica com Simon funciona justamente por esses momentos antagônicos. Contudo, ambos alçam conseguir o sucesso, levando a um bromance simpático.
O passado e o presente dialogam quando a série faz uma digressão muito assertiva, contando a trajetória do personagem Porta, herói bem desconhecido dos quadrinhos no episódio quatro. Nele, o roteiro sabiamente discute sobre carreiras meteóricas, a cultura do cancelamento, a instabilidade da fama, em que um dia é o centro de tudo e no outro no fundo do poço. Apesar do tom bem humorado, Magnum promove um retrato bastante perspicaz e reflexivo acerca destes apontamentos.
Com uma história que procura romper o convencional ao utilizar a metalinguagem para explorar os meandros da indústria audiovisual e conciliar com a temática de super-herói em um contexto de conflitos internos e adversidades do cotidiano, Magnum é o frescor que o MCU precisava. Graças a dupla Yahya Abdul-Mateen II e Ben Kingsley, a jornada em busca de participar do remake é um mergulho bem humorado e divertido ao mundo da atuação.














