Emerald Fennell é uma provocadora por natureza: desde os tempos de Killing Eve passando pelo manifesto da era #MeToo em Bela Vingança até o confuso Saltburn, a britânica nunca deixou de subverter a lógica daquilo que se esperava dela. Não que necessariamente isso signifique saber onde isso vai dar como fica provado na reta final do vencedor do Oscar 2021 de Melhor Roteiro Original. Logo, acreditar que a adaptação do clássico “O Morro dos Ventos Uivantes”, de Emily Brontë, iria respeitar a integralidade do livro é de uma ingenuidade comovente.

O novo filme não apenas muda a personalidade, origem e raça do protagonista Heathcliff como altera os rumos da história, retirando personagens e contextos do clássico sem maiores pudores. Este tipo de decisão, aliás, faz de “O Morro dos Ventos Uivantes” de Fennell algo muito próprio dos tempos atuais em que as obras de origem são apenas o ponto de partida para múltiplas possibilidades. Nada é colocado como sagrado ou intocável; pelo contrário, os caminhos de reinterpretações são tão infinitos que a fidelidade vira um mero detalhe. Neste sentido, não tenho o menor problema com isso: quem quiser assistir a uma adaptação mais fiel estão aí disponíveis as versões de William Wyler com Laurence Oliver de 1939 e o drama de 1992 com Juliette Binoche e Ralph Fiennes. 

A grande questão aqui é para onde esta versão pretende levar a releitura do clássico de Brontë. Apesar do material base clássico, “O Morro dos Ventos Uivantes” mostra-se marcado por características tão próprias dos tempos atuais como ser marcado por profundas contradições compensando tudo isso pela estética estonteante. Retrato escarrado do cinema de Fennell com todas suas virtudes e defeitos.

A sequência de abertura mostra o melhor da abordagem contraditória ao iniciar com a tela escura e o som de uma pessoa gemendo como se por prazer até descobrirmos que, na verdade, o pobre coitado está sendo enforcado. O destino trágico, entretanto, não impede dele ter uma senhora ereção vista por centenas de pessoas em uma praça pública, inclusive, por Cathy, ainda uma garotinha. Teremos, então, uma versão mais quente com muitas cenas de sexo? Não é bem assim: “O Morro dos Ventos Uivantes” parece sempre hesitar até onde ir nestas sequências.

O tesão de ter dois gostosos como protagonistas – Margot Robbie e Jacob Elordi – se dilui com um falatório interminável e, quando chega a hora, se mostra tão comportado e conservador quanto um dorama diante daquilo que insinuou. Resta apelar para a batida ilusão à comida trabalhada muito melhor, por exemplo, em Trama Fantasma para ficar em um caso mais recente. Falando da idealização do amor dos hits sul-coreanos, aliás, Fennell até parece abraçar com o romance idealizado em um aceno à obra original na parte inicial do romance entre a mocinha e o mocinho na infância como na composição bem juvenil de Margot Robbie, mas, larga de mão deste viés como se não o tivesse abraçado.

A contradição vai para além da abordagem do sexo: Fennell insinua que pretende trabalhar todo o contexto sobre a disparidade das classes sociais e como isso define o destino daquelas pessoas. A primeira parte até consegue ser assertiva ao mostrar o isolamento da casa de Edgar (Shazad Latif) em relação à pobreza onde vivem os protagonistas e como a mansão traz um aspecto idílico, quase como um conto de fadas com seu jardim verdinho em contraste com a casa destelhada e a escuridão dilacerada pelo frio. “O Morro dos Ventos Uivantes” segura este interesse até a partida de Heathcliff; dali em diante, o filme simplesmente deixa de lado esta abordagem sem trabalhar sequer como o personagem de Elordi foi transformado pela ascensão social ou qualquer reflexão do tipo.

Símbolo maior da modernidade, o ritmo acelerado não poderia ficar de fora de “O Morro dos Ventos Uivantes”. Aqui, entretanto, esta característica gera uma dualidade problemática: por um lado, é impossível dizer que o filme seja cansativo; mesmo com 2h14 de duração, a montagem de Victoria Boydell dinamiza os acontecimentos sem que o público fique perdido com tantos personagens nem cansado pela velocidade dos fatos. Esta característica, porém, tira o peso de certas passagens decisivas, afinal, a rapidez com que tudo é apresentado dilui espaços temporais significativos capazes de gerar todos os ressentimentos fundamentais para a reta final da trama. Tudo chega a ser tão rápido que Cathy ao dizer que Heathcliff passou cinco anos longe, você até se questiona se é verdade. 

A saída para disfarçar todas estas fragilidades, claro, fica a cargo da estética. Neste quesito, pode-se falar tudo menos que “O Morro dos Ventos Uivantes” não seja bonito. Da direção de arte vermelha da casa remetendo a Gritos e Sussurros como um espaço sufocante e perigoso aos figurinos exuberantes no melhor estilo Maria Antonieta aliando modernidade e classicismo até chegar na direção de fotografia do ganhador do Oscar Linus Sandgren criando imagens fabulosas seja nos cenários fechados ou abertos, temos uma obra para emoldurar em diversos momentos. Para que serve tudo isso e como isso se relaciona com a trama, não fica muito claro nem parece a intenção de Fennell; o importante é a beleza.

Diante de caminhos nem sempre abraçados ora por convicção ora por incerteza, mas, sempre apostando no belo do ponto de vista estético, “O Morro dos Ventos Uivantes” é uma indefinição entre o organizado e a bagunça. Tem momentos arrasadores e outros de constranger. Consegue empolgar e aborrecer na mesma medida e, às vezes, no mesmo momento. São as contradições da modernidade encontrando o clássico.