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“Isabel”, novo longa de Gabe Klinger lançado mundialmente na Berlinale deste ano, bebe livremente do talento e do carisma de sua atriz principal — e também co-roteirista — Marina Person para dar vida à sua protagonista sonhadora. Trata-se de um filme que abraça o público com ternura e com uma visão romântica de uma crise pessoal, apesar de alguns impasses narrativos.

A crise em questão é a estagnação da personagem-título (Person), uma sommelier insatisfeita com seu trabalho em um restaurante paulistano e que sonha em abrir o próprio bar de vinhos. Quando surge a chance de transformar esse desejo em realidade, ela aposta tudo — e, quando as coisas não saem como o esperado, Isabel se vê forçada a encarar os limites do próprio objetivo e a se perguntar: dá para beber ou já virou vinagre?

Os melhores momentos do roteiro assinado por Klinger e Person surgem quando as desventuras da protagonista ganham contornos universais. O desconforto com o trabalho e o desejo de trazer paixão para a vida profissional estão longe de ser sentimentos restritos a um grupo seleto. Nas interações entre Isabel e seu potencial investidor, Pat (John Ortiz), o filme ainda toca em uma ferida igualmente recorrente: a de mulheres que precisam reiteradamente provar credibilidade e viabilidade comercial diante de financiadores homens.

No entanto, à medida que amplia o escopo de sua ação, Isabel passa a sofrer com certa falta de foco. Por um lado, personagens secundários são apresentados e recebem um tempo de cena desproporcional ao seu desenvolvimento. O exemplo mais evidente é Nico (Caio Horowicz), amigo e confidente de Isabel, presença constante na narrativa, mas cuja vida interior permanece amplamente opaca.

Por outro, o longa ensaia abarcar temas como as dificuldades enfrentadas por pequenos empreendedores e a gentrificação dos centros urbanos, sem nunca se aprofundar neles. Dentre esses elementos, é o charme de São Paulo que ganha contornos mais definidos e, em troca, acaba moldando o projeto. É no deslocamento pela cidade que Marina Person entrega seus momentos mais deliciosamente agridoces. Em sequências como aquela em que transporta uma geladeira pelas ruas, a atriz consegue comunicar toda a ilusão de sua personagem com uma única expressão.

De fato, “Isabel” funciona tanto como uma ode à enofilia quanto como uma carta de amor à capital paulista, deixando seus personagens se perderem por bares, cafés, lojas e restaurantes em cenas que transbordam calor e familiaridade. O resultado faz imaginar como seria “Sideways – Entre Umas e Outras” se tivesse sido filmado no Brasil por um cineasta como Éric Rohmer.

As imagens suaves captadas em 16mm pela diretora de fotografia Flora Dias conferem à obra a textura de um sonho ou de uma lembrança difusa — talvez levemente entorpecida pelo álcool, para manter o espírito do filme. Esse torpor ajuda a diluir parte da indecisão da produção, que atravessa seus 85 minutos sem definir plenamente se quer falar sobre uma mulher ou sobre uma cidade.

Ainda assim, o filme se mostra seguro em sua defesa dos sonhos improváveis e das pessoas falhas que insistem em persegui-los. Parafraseando a forma como sua protagonista descreve os vinhos orgânicos que tanto ama, “Isabel” é um filme imperfeito, mas cheio de personalidade.

Autor

  • Lucas Pistilli

    Jornalista e advogado baseado no Reino Unido. Cobre eventos cinematográficos internacionais como os festivais de Cannes, Karlovy Vary e Londres. Já foi repórter das edições impressa e digital do jornal amazonense A Crítica, onde escreveu sobre cultura, economia e política. Hoje, além do Cine Set, também colabora para o site cinematográfico britânico DMovies.org e assina o blog Culture Frequencies (ambos em inglês).

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