Quando pensamos em um filme de animação com animais, o foco se volta para figuras comuns como os domésticos cães, gatos e até coelhos. Por isso, a nova aposta da parceria Disney Pixar ousa em acompanhar um animal pouco conhecido nas telonas: um mero castor. Além da inovação no protagonismo do filme, Cara de Um, Focinho de Outro também se mostra como uma tentativa de emplacar a ficção científica numa animação do estúdio de forma bem-sucedida – algo que não vemos desde Wall-E (2008).

Junto a estes fatores, o roteiro de Jesse Andrews (Luca) aposta na temática ambiental como principal argumento do filme. Essa combinação poderia facilmente criar algo cansativo e desinteressante aos olhos do público, porém, com doses certas de humor e personagens empáticos, a narrativa se torna leve e, acima de tudo, relevante.

Utilizando o recurso frequente de sentimentalismo familiar, o filme acompanha a jovem Mabel (Piper Curda) e sua relação com a natureza através de um santuário deixado por sua avó. Sem a presença da mentora, a protagonista recorre a um dispositivo que transfere sua mente para um castor robô em busca de convencer os animais a voltarem ao local e impedir os avanços ambiciosos do prefeito Jerry (Jon Hamm) sobre a área.  

No momento de estabelecimento da trama, observamos como a relação de Mabel com a natureza é contemplativa e extremamente importante para sua construção pessoal. Igualmente, é feita a confirmação que os benefícios oferecidos pela obra de Jerry à população são mínimos enquanto o impacto ambiental é enorme.

Assim, o filme consegue conectar as motivações pessoais de Mabel com o cenário proposto, inserindo aos poucos o humor que é tão importante para a obra. O diretor Daniel Chong, conhecido como criador da série animada Ursos Sem Curso, persiste no humor como alívio da trama mais complexa. A própria explicação de como o dispositivo tecnológico funciona é feita com bastante humor físico e pouquíssima complicação científica.

Essa forma engraçada de ver o mundo se aplica também ao drama ambiental. No decorrer de diversas cenas, existe uma crítica muito forte sobre a ação humana frente aos animais em prol de um suposto progresso. Mesmo os desdobramentos que seriam dramáticos arrancam boas risadas do público, tornando a história mais fluida.

O problema desse humor muito bem aplicado é que sobra pouco espaço para o sentimentalismo tradicional do estúdio. Não temos aqui uma cena memorável entre neta e avó como em Viva – A vida é uma Festa, por exemplo. Nem mesmo o novo amigo George (Bobby Moynihan), com o qual Mabel divide a maior parte da história, ganha um destaque sentimental profundo.

Ademais, o filme oferece a qualidade visual esperada da Pixar. Os personagens humanos têm um nível de detalhismo impressionante. Quanto aos animais, há muita criatividade na concepção de cada espécie de forma que elas sustentem as características físicas como a própria personalidade dos animais, ou, ainda, brinquem com os extremos – um tubarão enorme, porém simpático e uma delicada lagarta, mas extremamente cruel.

Com uma trama tão significativa, o longa dificilmente se tornará esquecível em meios a outras produções do estúdio. Porém, ainda persiste a impressão que falta algo a mais. Afinal, foi feita toda a lição de casa: protagonista carismática, boas piadas e trama envolvente, faltando somente emocionar, de fato, o público.