Há 60 anos atrás o mundo testemunhava o nascimento de muito mais que um clássico, mas o surgimento de uma potência do audiovisual anticolonialista e descentralizado do eixo Hollywood-Europa. Com direção de um jovem escritor e contista, Ousmane Sembène, “A Negra de…” (La Noire de…) era apenas o seu terceiro filme (o primeiro longa), arrebentando as estruturas do cinema negro, o fazendo ser merecidamente reconhecido como o “pai do cinema africano”.
Entender a força de “A Negra de…” é entender o seu histórico por detrás. O reconhecimento mundial para esse senegalês aconteceu pouco tempo depois da Segunda Guerra Mundial, a independência do seu pais e a quebra da dependência da França. O filme é o primeiro da África subsaariana a tornar-se reconhecido para além do continente. Não custa relembrar que a África não é um pais, mas um grandioso e diversificado continente. Logo, o seu olhar para com a dinâmica social de um país em reconstrução estava agudo, impressos nos seus livros, nos seus contos e nos seus filmes. A própria história de “A Negra de…” é uma adaptação de um dos seus contos.
Diouana (Mbissine Thérèse Diop) é uma jovem senegalesa em busca de emprego. Acaba por ser contratada por um casal de jovens brancos (Anne-Marie Jelinek, Robert Fontaine), para ser unicamente babá dos seus três filhos em Dakar, capital do Senegal. Pouco tempo depois a família se muda para a França, precisamente na Riviera Francesa e a madame propõe que ela vá. Diouana vai esperando desbravar o mundo a partir de sua chegada na França. Mas não é isso que a jovem encontra.
Instalada no pequeno grande apartamento de frente ao mar, a senegalesa não encontra as crianças e é absurdamente escravizada e sofrendo os mais diversos abusos, principalmente da sua patroa, enquanto o marido está em uma espécie de passivo agressivo.
Sembène coloca essa mulher no centro, porém silenciada. Pouco se ouve a voz de Diouana a não ser sua voz em off revelando os seus pensamentos. A jovem, livre em seu país natal, torna-se uma escravizada, naquelas paredes tão límpidas e aprisionada no sistema que a cala e explora.
Assistir “A Negra de…” é pensar em três máximas importantes: o banzo, como no atravessamento do Atlântico, os/as negros e negras sofriam desse sentimento profundo de deslocamento e acabavam tirando a própria vida, em um sofrer completamente genuíno; a Árvore do Esquecimento, quando em Benin, os escravizados eram obrigados a dar voltas (os homens 7 e as mulheres 9, pois entendia-se que as mulheres tinham mais memória) para esquecer da sua terra, nome, crenças, familiares e identidade; e a máxima de Fanon quando ele diz que “o branco está fechado na sua brancura”, especificamente nas cenas do jantar quando amigos dos patrões verbalizam coisas como, “ele são animais” ou “nunca beijei uma mulher negra antes”.
As violências epistêmicas que reforçam o racismo, machismo, preconceito e a síndrome do colonizador acima dos selvagens estão aqui. Quando Diouana se cala, não é por vontade, é o sistema que a faz perder a voz e não ter amparo frente ao fetiche branco em ver o corpo negro como animalesco, um objeto, uma peça de um zoológico que está ao seu favor do entretenimento, subordinação e boa vontade. É a “maldade de gente boa” em sua essência.
Em apenas 60 minutos, Ousmane fora tão perspicaz em “A Negra de…”, que percebemos a sua forte influência na nouvelle vague, um movimento cinematográfico surgido na Europa. Mas não esperem uma homenagem, a influência soa mais como um deboche da tecnologia negra frente aos colonizadores em realizar o filme surfando nesse movimento, mas contando uma história realmente importante, não trivialidades brancas em suas superficialidades, uma antítese do movimento.
Outra peça fundamental no filme é a metáfora máscara que a jovem presenteia seus patrões, estampado na parede na sala. Ela representa a Diouana de antes, no seu país, com o livre arbítrio, nos elegantes trajes, até ser levada para outro lugar, tornando-se prisioneira. Quando ela (a máscara) volta ao seu lugar de origem e persegue o patrão é como fosse a lembrança da perda da identidade da jovem, do seu silenciamento. Entretanto, sabemos que o pacto da branquitude não se importa e logo menos esquecem de suas ações como se nada tivesse existido.
O filme é um manifesto. Acentua um lugar, especialmente da mulher negra, na representação do estigma social que carrega o seu corpo. Quantas Diouanas conhecemos ainda nos dias de hoje passados sessenta anos, trazidas dos interiores com a promessa de uma vida melhor, empego e estudo?
Quando a empregada se rebela e começa a questionar o seu lugar, como é tratada, não poder sair daquele ambiente senão em uma condição de explorada, há um surto nesse apartamento. Como ousa se rebelar e questionar a nossa boa vontade? Quem é essa negra?
A Negra de… de onde ela é? Qual a sua identidade? Seus sonhos e vontades? No mundo colonizado, dominado por ideais eurocentrados isso tem pouca ou nenhuma significância, afinal, seus corpos ainda são como mercadorias exploratórias. E essa visão de descolonizar e inflamar a ferida fez desse clássico sexagenário um importante manifesto em humanizar aquilo/aqueles não enxergados como gente. E pouca coisa mudou até então.
A Negra de…, está disponível no Mubi.














