Desde o seu anúncio, “Os Mortos Não Morrem” tinha tudo para dar certo: um elenco estelar comandado por um cineasta aclamado, com uma premissa louca o suficiente para atrair tanto o público de arte quanto fãs de blockbusters. Entretanto, depois de uma fria recepção na noite de abertura do Festival de Cannes e a uma passagem muda no Festival Internacional de Cinema de Karlovy Vary, o público percebeu que, embora os mortos aqui possam estar vivos, o mesmo não pode ser dito para o novo filme do diretor Jim Jarmusch. 

É uma pena, pois o filme tem um certo charme cult. Bill Murray, Adam Driver e Chloë Sevigny estrelam como um trio de policiais que se vêem tendo que lidar com uma horda de zumbis tocando o terror em sua pequena cidade americana. 

Dentro dessa proposta, o diretor se mostra disposto a brincar com as alegorias do gênero e inclui a maioria de seus personagens clássicos: o fazendeiro rabugento (Steve Buscemi), o nerd bobão (Caleb Landry Jones), a assustadora agente funerária (Tilda Swinton), os estrangeiros sem noção (Selena Gomez, Austin Butler e Luka Sabbat), e assim por diante. 

NEM TÃO INTELIGENTE ASSIM

Infelizmente, o resultado é muito parecido com um dos zumbis do filme: um cadáver andante de fala automática. Para além dos policiais, não há qualquer tipo de desenvolvimento emocional para fazer o público se preocupar por qualquer uma das vítimas do apocalipse. Elas são apenas funcionais, existindo unicamente com o objetivo de serem excêntricas. Neste quesito, Tilda Swinton fica com o papel mais interessante – uma escocesa deliciosamente estranha que também é uma excelente espadachim. 

Nesse quesito, “Os Mortos não Morrem” traz ecos de  “Ave, César!”, dos irmãos Joel e Ethan Coen, – outro filme com elenco impressionante mas com diversos personagens subdesenvolvidos. Ao menos, Jarmusch – que também escreve o roteiro – até consegue fazer boas críticas ao capitalismo, que é o grande vilão do filme. Reanimados, os cadáveres são atraídos para o que ansiavam quando vivos. É assim que temos uma cena fantástica com zumbis com telefones procurando wi-fi e outro em que um personagem tocado por Iggy Pop volta com uma sede sem fim de café.

Já outros ataques, como o fato do apocalipse zumbi ter ocorrido como consequência da exploração de petróleo nos círculos polares, algo negado veementemente pelo governo, funcionam até certo ponto, mas apenas escancaram um triste fato: na realidade, “Os Mortos Não Morrem” não é tão inteligente quanto todos os envolvidos nele querem que seja. Isso fica claro quando a personagem de Adam Driver faz críticas ao próprio roteiro do filme em um exercício de metalinguagem completamente fora de contexto. Apesar das aspirações, “Os Mortos Não Morrem” pode alegar ter um cérebro, mas certamente não tem alma.

*O jornalista viajou para o Festival de Karlovy Vary como parte da equipe do GoCritic!, programa de fomento de jovens críticos do site Cineuropa.

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