Entre memórias, afetos e um símbolo que atravessa gerações, o cinema nacional ganha mais um longa carregado de saudosismo com a estreia de “O Velho Fusca”. Dirigido por Emiliano Ruschel, a história do jovem Júnior, que decide reformar por conta própria um fusca abandonado do avô, aposta na força de discussões atuais para revisitar laços familiares e restaurar pensamentos antiquados, como se a mente fosse um velho motor.
O Cine Set teve a oportunidade de conversar com o diretor Emiliano Ruschel, e os atores Caio Manhente e Giovanna Chaves sobre o tempo de espera e o momento de seu lançamento até as questões sociais discutidas no longa. A seguir, você confere a entrevista completa.
Cine Set – Logo no começo do filme, o personagem do Caio Manhente fala que o fusca não é velho, mas vintage, e a gente tá vivendo essa época que o vintage e o analógico estão na moda, né? E o filme foi gravado em 2022, tá saindo agora e parece que ele saiu assim no momento certo. Como é essa sensação de ter aguardado quatro anos para o seu filme sair e ele sair exatamente no momento em que a temática dele está tão em alta assim?
Emiliano Ruschel – Cara, você sabe que a sensação que eu tenho é que o mundo é muito cíclico, né? Os anos vão passando, mas as coisas meio que se repetem. Essa coisa do vintage eu acho fantástica, porque ela também é um pouco da nossa conexão com a nossa própria família, sabe? Tipo, você gostava de ouvir vinil com o seu avô — e isso marca a gente. E acho que a gente foi se distanciando tanto das coisas com tanta tecnologia… tudo foi ficando muito digital, e a gente acabou perdendo algumas coisas que trazem afeto. Então essa coisa do vintage está muito ligada à memória afetiva.
O Fusca, no filme, de certa forma representa o próprio avô. Porque o vovô está dentro da casa dele, acumulador, cercado de caixas, solitário. E ele é assim por conta do jeito dele — grosso, boca suja, preconceituoso. E ele é uma alegoria, né? Representa isso para que a gente perceba que está errado. E o Fusquinha está na garagem, abandonado, cheio de caixas em cima — muito parecido com ele. Então o filme funciona como uma metáfora.
O Júnior vai para a faculdade, e hoje muitos jovens nem tiram mais carteira de motorista. Saiu um estudo mostrando isso. Por quê? Porque hoje tem Uber, outras formas de transporte. Mas o Júnior quer o carrinho dele. Ele trabalha num restaurante, quer construir a própria vida, e vê no Fusquinha do avô uma oportunidade. Então ele tenta se aproximar da família, nem sabe direito o motivo da briga, e vai se aproximando do avô. E enquanto restaura o Fusca, na verdade está restaurando a relação com ele. E aí o avô, que é duro, preconceituoso, entra em choque com o neto, que já é mais consciente, mais sensível.
Então o filme levanta essas questões, esses choques de gerações. Mostra o avô, os pais – personagens de Danton Mello e Cleo Pires – tentando ajudar, e o Júnior tentando se aproximar e viver o primeiro amor. E esse ambiente mais analógico ajuda muito, porque força o contato. Se fosse só videochamada, não funcionaria. Ele precisa ir lá, ajudar, passar tempo junto. O filme trata muito disso: perdão, convivência real, amor. O analógico está nisso — estar presente, ao vivo.
Cine Set – Você mencionou agora do trabalho do Júnior, e o filme também aborda o drama do assédio moral que ele sofre com o chefe, com micro agressões diárias. Mas ele acaba não reagindo a tudo isso. O filme se passa na modernidade, ele é um jovem antenado, tenta corrigir o avô… então foi uma decisão torná-lo passivo diante dessa situação?
Emiliano Ruschel – Você sabe que o filme tem várias subtramas, né? Elas levantam essas questões para que a gente discuta, como estamos fazendo agora. Mas, como diretor, eu não tinha tempo narrativo para aprofundar tudo. Teria que ser uma série. E acho que quem faria a denúncia seria a própria Laila, personagem da Giovanna. Inclusive, tem aquela virada — sem spoiler — em que ela salva o dia.
A proposta do filme é levantar questões de forma leve, sensível, sem virar um confronto inflamado. É mais para conscientizar do que provocar briga. Se o Júnior reagisse de forma agressiva, poderia parecer um incentivo à violência. Ao agir com calma, ele promove a paz. Ele sabe que está certo, tem testemunhas, mas escolhe não criar conflito. Ele aceita a demissão e vai embora — também porque encontrou acolhimento em outro lugar.
Cine Set – Como foi encarnar a Laila? E como ela se encaixa nessa proposta conscientizadora do filme?
Giovanna Chaves – Então, eu acho que o filme todo, eu acho que todos os personagens têm esse arco de você no começo esperar uma coisa e ser surpreendido. Então é muito legal de você assistir e acompanhar. E eu acho que durante o filme a gente realmente vai entendendo um pouco a Laila e ela também vai se descobrindo. Eu acho que ela se descobre na tela junto com quem está assistindo. É que ela ouviu a vida inteira de que ela era muito bonita e que talvez ela fosse só isso. Tanto que a treinadora chama ela de princesa, o Jeff vê ela muito nesse lugar de, a menina que eu quero conquistar e ela é bonita e tudo mais, mas ele não enxerga além do que ela mostra. Então, a partir do momento que ela tem essa troca mais genuína com o Júnior e ele de fato enxerga ela além do que ela mostra, ela vai se abrindo. E eu acho que uma das partes mais legais do filme é realmente esse diálogo deles que ela questiona ele assim: “Você tá de novo me julgando pela minha aparência” e ele fala: “Mas você também não tá me julgando? Que que você imagina olhando pra mim?”, então eu acho que aí ela começa a olhar ele de maneira diferente, sabe? E realmente ela consegue ter uma conversa com alguém que não tá só vendo ela além do estereótipo. Então é muito legal assim você acompanhar o filme e ver toda essa trajetória. E foi muito legal de gravar, e eu acredito que as pessoas vão gostar muito de assistir também.
Cine Set – Caio, você acha que o Fusca que o Júnior tanto quer, que na verdade é uma alegoria do próprio avô dele, que ele tenta reformar o Fusca por ele próprio, na verdade ele está tentando mesmo é limpar o avô, ou sejam trazê-lo pra realidade atual?
Caio Manhente – Eu concordo. Primeiro eu queria falar que é um prazer estar falando com você, que eu amo Manaus e amo o Norte do país. Eu estive recentemente em Belém e meu Deus do céu, eu já estou com saudade, eu quero voltar.
Segundo, eu concordo com você totalmente que o Fusca é uma alegoria, claro, é uma metáfora, mas eu não acho que é uma alegoria para o avô. Eu acho que é uma alegoria pra família, porque você falou essa coisa de você remendar peça por peça. Eu acho que o Júnior faz isso. Ele tá com o avô, mas ele vai conversar com o pai, tem aquela conversa com o pai pra tentar entender o que o pai sentiu, o que que aconteceu. Ele vai conversar com o tio pra entender o que que aconteceu com esse tio. Então eu acho que na verdade o Fusca é a família, né? E ele acha que o passaporte pro amadurecimento dele é ganhar um carro, é ter aquele Fusca, mas na verdade ele amadurece quando ele começa a olhar pras pessoas que estão ao redor e entender que ele tem responsabilidade sobre aqueles relacionamentos. Eu acho que é isso que faz ele crescer e é isso que faz o filme ir em frente também.
Cine Set – E sobre o Tonico Pereira, que faz esse avô, é um ator muito carismático, mas o personagem do avô é um personagem ainda muito problemático, com falas muito problemáticas e às vezes, em alguns momentos do filme se percebe que o Júnior meio que se cala ali. Você não acha que talvez às vezes tem momentos que ele é um pouco condescendente com as atitudes do avô e que falta ali um puxão de orelha maior?
Caio Manhente – Cara, eu acho que eu entendo o que você quer dizer, mas assim, eu acho que a gente tem que entender que pessoas machistas, machistas somos todos nós, homens, mas enfim, pessoas altamente machistas, digamos assim, pessoas com todos os tipos de preconceito existem. E eu não vejo problema nenhum em personagens trazerem esses traços, porque eu acho importante, inclusive que a gente se reconheça no erro, porque acho que a arte serve para isso, serve para denunciar. E cara, eu entendo o que você quer dizer que às vezes o Júnior se cala, às vezes ele interrompe, às vezes não, mas eu acho que é isso. Eu acho que a gente está mostrando a relação de um neto com um avô, de uma pessoa muito mais velha, muito mais experiente com um jovem e que também tem todos aqueles preconceitos incutidos nele. Não da mesma forma que o avô, por uma questão geracional e tal, mas eu acho que é um trabalho de construção. É muito difícil a gente falar, por exemplo, eu como homem falar assim não, eu jamais deixaria um comentário machista passar na minha frente. Quem fala isso vai estar mentindo. A gente faz isso. Eu acho que o cinema, o teatro, a televisão, eles têm que servir como veículos para denunciar isso.
Cine Set – Para fechar, eu queria ouvir de vocês dois (Caio e Giovanna), o que que vocês esperam que as pessoas pensem ao sair da sala do cinema, depois da sessão e o que elas podem levar do filme pra casa?
Giovanna Chaves – Então, é aquela coisa que nem toda família é perfeita, né? Todo mundo enfrenta problemas, todo mundo às vezes acaba tendo uma discussão com algum parente, brigando. E talvez eu precise resolver esse conflito com alguém da minha família, porque pode ser tarde demais, sabe? Família é a coisa mais importante da vida, da minha vida, pelo menos eu acredito que é de todo mundo. Então eu acho que é sobre você pensar, né, sabe? É o próximo, as pessoas que você ama, em querer estar perto, em fazer questão. Então, acho que é isso, assim, é sobre você se unir com as pessoas que você realmente gosta, deixar os problemas de lado e focar no mais importante, que é a união que é você saber dizer eu te amo, que você está realmente perto das pessoas que você ama. E eu acho que o filme traz muito disso assim, dessa coisa familiar mesmo.
Caio Manhente – É uma oportunidade para a gente colocar a mão na consciência e pensar, porque esse avô, cara, ele é muito preconceituoso, ele é muito grosseiro. Mas ele tem um rancor guardado dentro dele, né? Tem uma mágoa, tem uma amargura guardada dentro dele. Então acho que ele é um tipo de personagem que a gente tem que olhar e falar, cara, assim, isso não faz bem. Acho que ninguém consegue ser feliz com tanto ódio, com tanta raiva pra colocar no mundo, entendeu? Então acho que é uma parada pra gente pensar também no quanto você ser preconceituoso, no quanto você querer ferir o outro. Então acho que é uma parada pra gente pensar também no quanto você ser preconceituoso, no quanto você querer ferir o outro, no quanto você querer negar o direito de existência do outro. Desculpa, assim, isso é péssimo e acho que essas pessoas precisam repensar e em certos casos serem presas, mas assim, no fim das contas, só faz mal pra própria cabeça delas. Deve ser horrível ter uma mente como a do vovô. E que bom que antes do final do filme, ele consegue de alguma forma se livrar um pouco disso.













