Lucia Murat é um dos grandes nomes femininos no campo da direção no cinema nacional. Inquieta, ela convida o espectador para compartilhar de suas inquietações políticas e sociais em seus filmes que, via de regra, transita entre elementos simbólicos importantes como memória, dilemas éticos e morais e repressão. Sobrevivente da Ditadura Militar (1964-1985), o incômodo impresso em suas produções é uma ferramenta de encontro entre o ontem e o agora e vislumbrando o amanhã.

Mas que amanhã é esse se o ontem ainda interfere diretamente no agora e suas forças opressivas determinam uma parcialidade social direcionada em corpos e territórios notoriamente vistos enquanto inimigos da antítese do projeto hegemônico? Surge, então “Hora do Recreio”, que passa por essas e outras questões do que é ser um jovem negro e/ou periférico no Rio de Janeiro.

Ao dar voz às crianças, adolescentes e jovens das comunidades, a direção constrói uma narrativa em primeira pessoa e interpessoal entre esses personagens que desde muito cedo tem noção do seu corpo enquanto alvo sob as mais diversas formas de “cídios”, entenda-se: genocídio, epistemicídio, etnocídio, feminicídio, além de homofobia, além de racismo, é claro. Quando ela busca colocar a Escola como um personagem à parte, nasce uma outra questão: o que é a Escola? Qual o seu papel para além do ensino regular?

E enxergamos uma dessas respostas quando a Secretaria de Ensino não libera a sua produção para adentrar a sala de aula, a solução é simular uma. Isto é, a Escola, por si, é uma simulação do ideal que, presa ao sistema que acumula uma função de fábrica: produzir mãos de obra, enquanto que as questões sociais e políticas, vividas diariamente pelos estudantes são relegadas a poucos professores interessados, ou corajosos (e vocês entendem muito bem o porquê) nessa função.

Contudo, a narrativa não linear de um docuficção abraça temas tão importantes, em depoimentos fortíssimos, mas oscila entre esses diálogos e a inclusão do teatro com a encenação de “Clara dos Anjos” (1923-1924) do lendário Lima Barreto (1881-1922). Há uma confusão pela forma que ela quer manifestar essas dores e anseios. Uma semiótica que não convence entre as transições das salas de aulas, da rua, do teatro e da dança (inclusive, as melhores cenas do filme são as intercalações dos números de dança, talvez se o foco fosse a arte, salvação e libertação, seria mais interessante). A força cênica desse grupo na expressão corporal fala muito mais e seria uma boa chance em sair desse samba-canção da obviedade.

A arte é resistência e Murat compreende muito bem, a trilha sonora é de uma curadoria espetacular que interconecta essa irregularidade, mantendo a atenção e conexão com a obra.

Esse “trabalho de classe” de Murat perpassa por violência da mulher, de raça, perseguição, abusos de poder, máscaras sociais e uma realidade de uma reprodução tão violenta para tão pouca idade. Há um equilibro entre a espontaneidade, talento e presença desses estudantes que empolgam, entretanto, parece que o tanto de material poderoso e forte deixou a direção e montagem um tanto perdida na mensagem. E eu penso que sei o motivo: eles, as crianças, os adolescentes e jovens, são tão gigantes, resistentes e resilientes que, realmente, até uma diretora como Lucia Murat, ficaria perdida frente a eles.