Em tempos de exageros, considerar um ator ou atriz como lendário não é tão incomum assim. A questão, muitas vezes, é saber se merecem tal título. Kurt Russell não sofre deste problema.

Afinal, o astro de 75 anos foi protagonista de verdadeiros clássicos populares do cinema dos EUA. Poucos podem se dar ao luxo de trazer no currículo filmaços como “Fuga de Nova York” e “O Enigma do Outro Mundo”, obras-primas de John Carpenter. Kurt Russell, entretanto, não parou no tempo e segue na ativa com bons projetos – na década passada, por exemplo, estrelou “Os Oito Odiados“.

Desta vez, Russell migra para o mundo das séries com “The Madison”. Na obra criada por Taylor Sheridan, ele interpreta Preston Clyburn que se muda para a zona rural de Montana para ajudar a esposa, vivida por Michelle Pfeiffer, em um processo de luto. O Cine Set conversou com o astro sobre a experiência de fazer parte da produção: 

Cine Set (Pâmela Eurídice) — Como foi trabalhar com o Taylor Sheridan e entrar nesse projeto?

Kurt Russell – Encontrei o Taylor só uma vez, por cerca de cinco minutos, alguns anos atrás. Quando conseguiram alinhar as agendas e eu soube que faria a série, fui para Montana no ano passado para começar. No início, tive algumas noites de conversa com ele, mas foi basicamente isso. O roteiro dele fala por si só.

O mais interessante é que, na maioria dos projetos, você espera mudanças, atualizações constantes… mas não com ele. O que Sheridan escreve é praticamente o que vai para a tela, então você consegue se preparar sabendo exatamente o que vai fazer. Realmente acho que esse é o melhor trabalho dele como roteirista.

Os personagens são muito fortes. Achei a Michelle (Pfeiffer) perfeita para a Stacy, e senti que poderia trazer as coisas certas para o Preston, para ela e para a série como um todo. Fiquei feliz que tudo deu certo, porque, no fim das contas, tudo começa com a base que o Taylor constrói na escrita.

Cine Set (Pâmela Eurídice) — Como você enxerga a proposta de “The Madison” e esse encontro entre universos tão diferentes?

Kurt Russell – Muita gente tenta entender isso como um faroeste, e eu até entendo, mas para mim é mais sobre esse encontro entre mundos — quase um “Leste encontra Oeste”. São personagens de Nova York que não sabem nada sobre a vida em Montana, sobre viver às margens de um rio, sobre o que o pai queria que eles experimentassem. Stacy conhece tudo só por fotos, por chamadas de vídeo, mas, como o próprio personagem diz, isso não é a mesma coisa que estar lá.

O que me atraiu foi justamente esse contraste. Nova York e Montana são quase personagens por si só, e o jeito como essas realidades se cruzam cria situações muito interessantes. No centro disso tudo, existe uma mulher lidando com o luto, mas a história também tem um humor inesperado — um humor quase ácido em alguns momentos — que equilibra bem o drama.

E o elenco todo é incrível. Você vê esses personagens aprendendo sobre si mesmos em uma situação completamente nova, cercados por pessoas com quem jamais imaginariam se conectar. E o mais interessante é que isso acontece dos dois lados: não só quem vem de fora aprende, mas também as pessoas de Montana passam a enxergar algo novo nesses visitantes. Acho que é isso que torna a história tão universal — muita gente pode se identificar com ela de diferentes formas.

Cine Set (Pâmela Eurídice) — A série apresenta uma relação conjugal bastante específica. Quais foram os desafios na construção desse personagem?

Kurt Russell – Na verdade, o Taylor já desenvolveu muito bem esse personagem, e isso foi algo que me chamou atenção desde o início. É um tipo de relação que a gente não vê com tanta frequência no cinema ou na televisão nos últimos anos. São duas pessoas que realmente se amam, que compartilham valores essenciais, mas que, como qualquer casal, têm diferenças na forma de criar os filhos.

O interessante é que, apesar dessas divergências, existe um respeito muito grande entre eles. Quando li o roteiro e vi como o Taylor construiu esses personagens, achei tudo muito autêntico, muito real. Era algo com o qual eu conseguia me conectar — e acredito que o público também.

Claro que isso precisa ser bem executado. A Christina Voros fez um trabalho excelente na direção, e o Michael Friedman, com quem trabalhei nas primeiras semanas, também foi fundamental nesse processo. E tem ainda Montana, que praticamente vira um personagem por si só — a forma como o lugar é retratado visualmente é simplesmente muito bonita.