O erotismo é um tema que aguça e brinca com o imaginário das pessoas. Obras que trazem o erótico costumam gerar interesse e engajamento pois desperta desejos proibidos, reprimidos ou exploração da sensualidade. Vladimir, minissérie produzida pela Netflix, se vende como um thriller erótico, porém beira a uma comédia boba e exagerada centralizada na figura da protagonista vivida por Rachel Weisz.
Tentando fugir de comparações inevitáveis com séries como Você (2018-2024) e Bebê Rena (2024), em que também retratam figuras obsessivas, a minissérie aposta em uma proposta mais jocosa e despretensiosa. A protagonista dialoga diretamente com o público, lembrando bastante a dinâmica feita em Fleabag (2016-2019) com o intuito de conquistar e aproximar a audiência para seu lado. A premissa carrega uma sensação de reciclagem, com aquela velha trama de tensão sexual misturada com desejo entre dois personagens, todavia, revela uma natureza despojada e cômica como um elemento diferencial para a sua narrativa.
A responsável por comandar esse tom cafona da história é a protagonista M, de Rachel Weisz. A atriz domina a série com sua presença magnética e atuação carismática. Ela centraliza o foco narrativo em si mesma e é a maior força da série porque ela se ajusta ao tom proposto. É um trabalho que imprime muita segurança e desenvoltura da atriz, pontos essenciais para tornar a personagem cativante. Logo de cara, Vladimir demonstra que a M é uma narradora não confiável, trazendo uma boa ambiguidade em suas ações e falas.
O problema é que o roteiro coloca a personagem em situações repetitivas que não evoluem. São discussões com a filha que não levam a lugar algum, os flertes com Vladimir que ficam na mesma ou as atitudes “morde e assopra” com a sua ex-aluna. Isso torna a personagem cansativa em muitos momentos, pois não há a sensação de uma progressão da história. A única interação que se torna interessante é com o marido John, que carrega boas provocações e interações cômicas. Para piorar, os coadjuvantes são mal trabalhados e unidimensionais. recebem migalhas de desenvolvimento e reforçam estereótipos padrões, como a filha rebelde lésbica por exemplo. Cynthia, esposa de Vladimir, só é usada como ferramenta de conveniência, sem nenhum aprofundamento.
O Vladimir, personagem título da série, carece de charme e personalidade. Leo Woodall, objeto de desejo da protagonista, tem uma presença anêmica e desinteressante. O personagem é tão banal que a química com a Rachel é prejudicada pois ele não corresponde a dualidade que ela traz ou aos olhares concisos dela. O ator não se esforça para driblar as superficialidades do personagem no roteiro.
O elemento erótico, ponto chamariz da série, se encaixa de maneira tímida na narrativa. Ele fica reduzido a cenas rápidas dos pensamentos e delírios da M. A sensualidade é abordada de forma até conservadora, sem nudez explícita ou tensão sexual mais acentuada. Nesse ponto, o thriller erótico e a tensão sexual são pouco abordadas. A consequência é que o tom fica desequilibrado, pois a série quer abraçar ambos os estilos quando convém, mas seu foco principal é nas situações de humor.
Algo interessante que deve ser levantado é de que a Vladimir explora a perspectiva da esposa do assediador, a pressão de um posicionamento ao mesmo tempo que enfrenta um dilema sobre apoiar o marido ou condená-lo. É uma das poucas coisas que o roteiro promove de diferente em termos narrativos. Casamento aberto é um tema presente dentro da narrativa, mas serve para gerar interações cômicas entre M e o marido. O ponto central, a obsessão pelo outro, é desenvolvida de forma telegrafada, com a protagonista falando e desejando toda hora Vladimir somente. A questão do assédio tratada na história fica em segundo plano e sem uma devida atenção.
Para coroar toda a cafonice existente, o episódio final abraça com força o absurdo, sem se preocupar em concluir certos pontos da história. Personagens coadjuvantes são totalmente ignorados, parecendo uma finalização improvisada visto que coisas inesperadas acontecem com o intuito de trazer um algo surpreendente e irônico. Em suma, a série segue à risca a sua breguice até o final.
Vladimir se comercializa como um thriller erótico na sua superfície, mas na realidade é uma comédia obtusa e esquecível, em que se ancora totalmente no talento e na presença de Rachel Weisz, que consegue imprimir alguma personalidade ao material para se sustentar dentro de uma narrativa inerte e pouco inspirada.













