40 Acres captura nossa atenção logo de cara pelo contexto histórico pós-apocalíptico do enredo. Uma pandemia de fungos dizimou 98% da biosfera animal e uma segunda guerra civil ocorreu como resultado do colapso da cadeia alimentar global. Com a maioria das terras tendo se tornado inférteis, muitas pessoas se tornaram canibais e uma fazenda de afro-americanos parece ser “o último refúgio”, como bem apontado no título, dos famintos habitantes dessa região.
Somos apresentados à curiosa família Freeman, liderada pela matriarca Hailey Freeman (magistralmente interpretada por Danielle Deadwyler), uma mulher bastante rígida na criação de natureza militar que dá aos seus filhos, juntamente com seu marido Galen. Em um mundo cínico em que a presença de qualquer estranho é vista necessariamente como ameaça, os Freeman são completamente inescrupulosos em matar qualquer pessoa que invada seus territórios. Nesse sentido, o filme conta com ótimas sequências de ação e um bom realismo nos efeitos gráficos no que concerne aos golpes e à sanguinolência.
A ambientação, quase sempre noturna, dá ao lar dos Freeman um ar de refúgio obscuro em meio a um perigo fatal e a coloração por vezes acinzentada da fotografia ressalta a frieza do mundo ao redor. A iluminação dura em meio à muitas sombras na casa, com coloração amarelada, quase dourada, reflete o teor primal ao qual à humanidade retornou, numa realidade em que a luz elétrica é rara.
A dinâmica entre Hailey e seu filho, Manny (vivido por Kataem O´Connor) é o centro da narrativa, que abraça um conflito geracional e de choque de personalidades para propor uma reabertura da obcecada e paranoica matriarca às outras pessoas nos arredores, graças à rebeldia do filho, que ganha bom desenvolvimento.
Apesar da premissa interessante e da força da interpretação dos personagens, a trama de 40 Acres é carregada de clichês, reviravoltas apelativas e facilitações narrativas em prol do êxito da família. O que começa parecendo uma obra naturalista se revela uma peça de ação com suspense cheia de bastante coreografia e fisicalidade, mas com nada de inédito em sua proposta de luta pela sobrevivência.
O interessantíssimo pano de fundo do enredo fica em segundo plano e se torna vazio. O longa se reduz a um filme de drama familiar movido à ação, sem grandes discussões ecológicas e nenhum tipo de abordagem profunda das questões globais que o cercam. Até mesmo o tal conflito familiar que se estabelece com a chegada de Dawn (vivida por Milcania Diaz-Rojas) é algo que já vimos inúmeras vezes nos mais diferentes tipos de filmes hollywoodianos ao longo de décadas.
Em suma, um filme que lembra um pouco Resistência (2023), de Gareth Edwards, no sentido de retratar uma ambientação distópica sem propor uma linguagem e uma estrutura inovadora com a história a qual se propõe. O resultado é uma trama fácil e previsível, em que você nunca realmente sente que algo de fatal vai acontecer com aquela mãe e família, pois eles são sempre escritos de modo a serem eficientes e sem defeitos.












