ALERTA: texto contém SPOILERS
EUA tiveram mais de 2.000 ataques a tiros em escolas desde 1970
FBI investiga ataque a escola nos EUA como ato de terrorismo
Tiroteio em escola do Wisconsin foi o 83º de 2024 nos EUA
Basta colocar os termos exatos no Google e uma profusão de reportagens e pesquisas como essas surgem aos montes. Os dados são simplesmente inacreditáveis e apontam para uma constatação inevitável: a violência nas escolas e universidades dos EUA é uma verdadeira epidemia, muito longe de ser encarada de forma séria pela sociedade do país.
Hollywood sempre se mostrou bastante hesitante para debater o assunto se comparado a outros temas urgentes dos EUA como o encarceramento em massa de negros, racismo, imigração ilegal, desigualdade social, questões políticas e econômicas, terrorismo e guerras no exterior. O temor de explorar a morte de crianças e adolescentes, os traumas dos episódios recorrentes e a divisão na sociedade sobre as razões para isso são incômodos suficientes para os estúdios fugirem do tema.
Não à toa Tiros em Columbine (2002), Elefante (2003) e Precisamos Falar Sobre Kevin (2011) seguem como os exemplares mais lembrados sobre crimes em massa nos colégios do país. Somente por encarar este espinhoso desafio, O Drama já mereceria aplausos. Kristoffer Borgli, diretor e roteirista, dobra a aposta ao decidir fazer uma comédia calcada no desconforto.
A princípio, parece uma completa loucura em todos os sentidos, mas se a realidade faz ainda menos sentido, por que não? Ser um outsider nos EUA – Borgli nasceu na Noruega – favorece para ver a insanidade com um pouco mais de lucidez.
O Drama se passa nas vésperas do casamento entre Charlie (Robert Pattinson) e Emma (Zendaya). Os pombinhos são apaixonados, lindos, engraçados, divertidos, enfim, perfeitos. Nestes primeiros 15 minutos, parece que estamos diante daquelas comédias metidas a espertas com cortes rápidos, sacadas espirituosas e aquele manual metido a sofisticado da A24.
A configuração muda quando os protagonistas encontram o casal de amigos Rachel (Alana Haim) e Mike (Mamoudou Athie). Enquanto provam comidas e champanhes para a festa, eles entram em um jogo de revelar o maior podre de suas vidas. Emma, já devidamente calibrada, acaba por soltar que planejou e por muito pouco não executou um tiroteio em massa na escola com o rifle do pai. É o suficiente para ser vista como uma potencial psicopata pelo noivo e os melhores amigos.
O grande achado do roteiro de Borgli é mostrar como o comportamento da sociedade não enxerga os próprios absurdos, mas não hesita em pisar no monstro da vez. Ambiente propício para criar uma panela de pressão sobre a vida do alvo escolhido. Emma passa por isso duas vezes: na adolescência, sem amigas, sofre tudo e mais um pouco nas mãos das colegas de classe. Na vida adulta, enfrenta isso do noivo e dos amigos mais próximos a partir de uma confissão em uma suposta zona de confiança.
Atos tão questionáveis quanto os de Emma são cometidos por Rachel (deixar um garoto autista trancado dentro de um armário em uma casa isolada por uma noite inteira sem avisar ninguém), Mike (usar a namorada de escudo para se proteger de um ataque de um cão) e do próprio noivo (cyberbullying a ponto de fazer um garoto e família mudarem de cidade) são considerados menores. Aqui vale o detalhe: Emma planejou, mas não executou, diferente do trio. O alvo, entretanto, está definido e será atacado de todas as formas.
A partir dali O Drama entra no modo De Olhos Bem Fechados (1999) em que a paranoia de Charlie domina as ações. De forma bastante habilidosa, o filme alterna a realidade e a imaginação do protagonista. Vindo do também perturbador O Homem dos Sonhos, Borgli extrai momentos de agonia como o trocadilho do verbo shoot (atirar e tirar fotos) com o barulho dos flashes remetendo a tiros e o discurso sem noção de Charlie no casamento. É o desconforto como tônica a partir da comédia para trabalhar um tema dificílimo.
Guiado por atuações sublimes de Robert Pattinson e Zendaya (atenção Academia!), O Drama por vezes se perde como a história da DJ usuária de crack e da traição de Charlie com a colega de trabalho. Ali, parece um filme que está disposto a sempre uma crítica a mais em vez de se concentrar naquilo que possui de melhor. Nada, porém, que macule uma comédia corajosa como não se via há muito tempo, ilustrada de forma definitiva no passeio “romântico” do personagem de Robert Pattinson com a versão criança de Emma carregando um rifle. Seria absolutamente chocante não fosse a realidade crua de dezenas de jovens mortos dentro de escolas todos os anos nos EUA.















