Há algo de frio – e ao mesmo tempo muito preciso – na forma como Jim Jarmusch constrói Pai Mãe Irmã Irmão. Não é um filme que se entrega fácil. Cada cena parece organizada para manter uma certa distância, como se os próprios personagens não soubessem exatamente como se aproximar uns dos outros.

Dividido em três histórias, o longa acompanha diferentes núcleos familiares em momentos de reencontro. Filhos que voltam, irmãos que se reveem, relações que tentam se reorganizar depois de muito tempo afastadas. Mas o que poderia ser um espaço de reconciliação vira outra coisa nas mãos do diretor: um terreno de silêncio, hesitação e desencontro.

Essa sensação passa diretamente pela forma. Há uma formalidade clara na encenação – nos enquadramentos, nos movimentos contidos e no tempo das pausas – que sustenta a tensão do filme. Não é uma tensão explosiva, mas acumulada. Ela cresce nos pequenos gestos, nos diálogos interrompidos, no que nunca é dito por completo.

A estrutura em blocos não é nova na carreira de Jim Jarmusch. Filmes como Uma Noite Sobre a Terra e Sobre Café e Cigarros já exploravam encontros fragmentados. Aqui, no entanto, o tom é outro. Há menos leveza e mais controle, menos humor aparente e mais frieza.

As três histórias se conectam por pequenas rimas: gestos que se repetem, situações que retornam sob novas formas, detalhes que atravessam os diferentes núcleos. Como parte da crítica já apontou, essa repetição sugere que, apesar das diferenças culturais e geográficas, os conflitos são semelhantes. Todos estão, de alguma forma, tentando se reconectar – mesmo sem saber como.

Ao mesmo tempo, essa escolha cobra seu preço. Ao manter um tom muito próximo entre os episódios, o filme cria uma certa monotonia emocional. As variações existem, mas são discretas. Em vez de ampliar o impacto, a repetição pode gerar distanciamento, como se cada nova história retomasse um ponto já conhecido.

Ainda assim, há interesse em observar essas relações. E muito disso vem do elenco. Nomes como Tom Waits, Adam Driver, Cate Blanchett, Charlotte Rampling e Vicky Krieps trazem uma naturalidade que contrasta com o rigor da direção. São pequenos gestos, olhares e pausas que revelam afeto mesmo dentro de uma encenação mais contida.

A fotografia de Yorick Le Saux e Frederick Elmes reforça esse distanciamento. Os espaços parecem amplos demais ou organizados de forma que os personagens nunca estejam completamente à vontade. Não é só uma escolha estética – é uma forma de traduzir visualmente essas relações quebradas.

Dentro da filmografia do diretor, o movimento chama atenção. Se antes ele explorava figuras deslocadas em contextos mais excêntricos – como os vampiros de Amantes Eternos ou o humor de Os Mortos Não Morrem – aqui o olhar se volta para algo mais próximo, mais reconhecível. Ainda assim, sem abrir mão da distância que marca seu cinema.

Esse interesse pelas relações familiares também aparece, de outra forma, em Valor Sentimental, de Joachim Trier, lançado no mesmo ano. Enquanto Trier concentra seu olhar em um núcleo mais definido, aprofundando seus conflitos de maneira direta, Jarmusch opta por expandir. Em vez de mergulhar fundo em poucos personagens, ele observa diferentes variações de uma mesma dificuldade: a de estar junto.

Nesse sentido, há mais possibilidades em Pai Mãe Irmã Irmão, mas também menos impacto. Onde Trier encontra força na concentração, Jarmusch aposta na repetição. O resultado é um filme que amplia o olhar sobre as relações, mas nem sempre aprofunda suas consequências.

Mesmo assim, há algo de envolvente nesse processo. Muito disso vem da presença dos atores, que conseguem criar pequenas fissuras na rigidez do filme. São nesses momentos que a emoção aparece, ainda que de forma contida.

Vencedor do Leão de Ouro no Festival de Cinema de Veneza 2025, Pai Mãe Irmã Irmão não está entre os trabalhos mais marcantes de Jim Jarmusch. Ainda assim, funciona como um exercício interessante de um diretor que, ao se aproximar do cotidiano, encontra novas formas de observar um tema recorrente: a dificuldade de comunicação – mesmo entre aqueles que deveriam se entender melhor.

No fim, o filme parece menos interessado em resolver essas relações do que em observá-las existir. E talvez seja justamente aí que reside sua força – ainda que limitada.