No início as botas batidas. Sentido! Marcha, soldado. Para onde, soldado? Desfila, soldado!
Esse início me remeteu a música “Conversa de Botas Batidas”, dos Los Hermanos. Mas a lembrança funciona somente no título. O lirismo da canção em nada se assemelha à brutalidade do que essas botas batidas iniciais estão prestes a revelar.
As botas batidas, aqui, revelam um verdadeiro massacre, em todas as instâncias possíveis, na ocupação do Exército no Complexo da Maré, um grande complexo de favelas/comunidades que viveram momentos de verdadeiro horror entre 2014 e 2015 quando as Forças Armadas, legalizadas pelo Governo Federal, subiram o morro para “colocar ordem” em um momento bastante oportuno: Copa do Mundo e Olimpíadas.
Ordem para quem? É isso que as diretoras Natasha Neri e Gizele Martins, essa personagem principal com seu olhar e voz, buscam denunciar os longos abusos sofridos pelos moradores da Maré durante esses meses de terror, tortura e ditadura.
As botas batidas seguem uma ordem muito clara: extermínio. Nesse sentido, o documentário é muito claro e direto ao ponto. Não há uma grande preocupação na tradição sistemática em como montar um filme, cortes, fotografia. Claro, nada aqui é amador. A mensagem é maior que qualquer outra questão tradicional no âmbito da técnica. Vemos isso nas vozes que ecoam através dos longos anos de registros, perdas, perseguições e injustiças.
O depoimento de Edrilene Nero, mãe do jovem assassinado Lorran, serve como um panorama de todas as vozes de mães que buscam por justiça pela vida perdida dos seus filhos. Outro depoimento, de Vitor Santiago, que perdeu uma das pernas em um atentado contra sua vida, revela um pouco da sobrevivência de jovens como ele que sobreviveram, mas estão com sequelas pelo corpo. É da sua voz que sai o título do documentário, pois, em um momento de (in)consciência, ele só sentia o forte cheiro de diesel.
E o diesel se alastrou pela Maré por conta das botas batidas. Esses jovens despreparados e com um poder acima que poderiam lidar em sitiar toda uma comunidade. Chama a atenção esse fato importante: as botas batidas eram jovens com um poder legitimado em exterminar. E a justiça nisso tudo? Não há.
A fala mais forte do filme é de Edrilene quando diz “falta coragem nessa justiça. Cegos eles não são, a justiça não é cega, eles enxergam, eles sabem. Eles só não têm coragem”. Se a justiça não tem coragem, a comunidade, no meio desse estado de sítio tem. Quando denunciam, fazem páginas nas redes sociais, vão às ruas. Usando de suas prerrogativas suprimidas pelas botas batidas.
Uns anos atrás, escrevi a crítica de “Nada Novo no Front”, falando desse discurso ufanista e como ele é nocivo e corrói a mente de jovens para uma guerra que não é sua. A militarização no Brasil é basicamente isso, com o agravante que, para eles, o inimigo está em seu próprio território, está nas favelas, nas comunidades e periferias com um destino muito claro: corpos negros. Não é surpresa que a maioria das vítimas e daqueles que ousaram falar no filme e para além dele, são negros.
Diante desse cenário, a sequência das botas batidas marchando enquanto no palanque muito bem vestidos, com suas condecorações e esposas pomposas estejam os homens brancos, risonhos e satisfeitos revela a real intenção do projeto de ocupação e sabemos quais são.
“Cheiro de Diesel” pode ter suas irregularidades e a falta de um trato estético. Mas isso é tão menor perto da importância do tema. Não dá para ser insensível enquanto as botas batidas estão exatamente agora, em qualquer lugar do Brasil, exterminando mais um jovem negro, ou talvez uma pessoa negra por engano?













