ALERTA DE CONTEÚDO: o texto a seguir aborda temáticas relacionadas a violência sexual.

“Queen at Sea”, novo filme estrelando Juliette Binoche, é uma dura reflexão sobre demência, consentimento e libido na terceira idade. Ovacionado em sua estreia mundial na Berlinale, onde venceu o Prêmio do Júri (a medalha de bronze do evento), o duro drama é cinema para adultos da melhor qualidade, cujas implicações morais reverberam muito tempo depois dos créditos finais.

Binoche interpreta Amanda, uma mulher que retorna para Londres para cuidar da mãe Leslie (Anna Calder-Marshall), que sofre de demência avançada. Quando ela encontra seu padrasto Martin (Tom Courtenay) tendo sexo com ela, ela o acusa de estupro e chama a polícia para lidar com o incidente, o que desencadeia uma série de eventos que choca profundamente as fundações da família e torna a vida de todos um inferno.

O longa marca o retorno do cineasta Lance Hammer à direção após um hiato de 18 anos, mas o tempo não diminuiu em nada seu desejo de investigar como as pessoas reagem a tempos desesperadores. Seu roteiro aqui é de uma tristeza dilacerante, potencializada pela sua recusa de imbuir sua trama com sentimentalismo. Rodado pelo diretor de fotografia brasileiro Adolpho Veloso com uma muda paleta de cores, bem como vários close-up e planos médios, o filme é tudo menos um melodrama.

Ele é, primariamente, uma série de perguntas incrivelmente desconfortáveis feitas ao público. Teria Amanda cometido um erro ao envolver a polícia? Teria Martin realmente cometido um crime? E o que dizer da vontade de Leslie, personagem sempre no centro da ação mas pouco ouvida por conta de sua condição? Eis um filme que quer conversar sobre quanta validez é possível ser dada à vida interior de uma pessoa com demência, bem como sobre o quanto a nossa sociedade é capaz de ter essa conversa.

Para complicar ainda mais a discussão sobre a questão de estupro legal (isto é, aquele que ocorre quando um dos parceiros não tem capacidades dentro das previstas na lei para oferecer consentimento à relação sexual), a produção insere a subtrama de Sara (Florence Hunt), filha adolescente de Amanda que está tentando levar seu romance de escola para a cama. Em paralelo, as histórias convidam os espectadores a pensarem porquê elas são vistas de maneira distinta, com uma suscitando uma investigação e outra não.

O quarteto principal de atores está fantástico, mas é Courtenay, responsável pelo papel mais moralmente ambíguo da trama, que brilha mais forte aqui. O afeto e o desespero que ele imprime na maneira com que Martin defende os próprios atos já valem o ingresso. Não surpreendentemente, a Berlinale o premiou (junto com Calder-Marshall) com o Urso de Prata de Atuação Coadjuvante por sua performance aqui.

À sua maneira, o filme relê os temas de “Vórtex”, de Gaspar Noé, de uma maneira mais naturalista e, se o espectador tiver nervos de aço, esses dois filmes se prestam bem a uma dolorosa sessão dupla. Ambos olham para o que acontece quando o coração e a mente não dançam conforme a mesma batida, mas tampouco deixam o salão. Em “Queen at Sea”, esse descompasso é quieto e trágico, como os últimos segundos de uma música.