Um belíssimo estudo de personagem de um poeta triste e fracassado em busca de uma redenção que nunca virá.
Há algo no protagonista de ‘Um Poeta’ que ecoa o niilismo caricato de BoJack Horseman – não como referência direta ou citação preguiçosa, mas como uma vibração semelhante. Ambos habitam esse espaço incômodo entre o riso e o vazio, onde o fracasso deixa de ser apenas circunstância e passa a se tornar identidade. Ainda assim, o filme não se contenta em aprisionar seu protagonista nessa chave. Há um esforço constante – por vezes silencioso, por vezes constrangedor – de tentar enxergar além da caricatura, como se, mesmo sem saber como, ele buscasse escapar de si próprio.
É nesse equilíbrio delicado que o longa de Simón Mesa Soto encontra sua força. A encenação nunca ridiculariza completamente esse homem, mas também não o protege. Existe um olhar que compreende sua fragilidade, ao mesmo tempo em que expõe suas pequenas vaidades, seus gestos patéticos e a insistência quase infantil em se colocar no centro de uma narrativa que já não parece lhe pertencer. O humor nasce justamente dessa fricção: rir dele nunca é confortável, mas talvez seja inevitável.
O que o filme constrói, aos poucos, é a sensação de um deslocamento contínuo. Esse poeta parece sempre fora de tempo – seja no espaço que ocupa, nas relações que tenta estabelecer ou na própria ideia de arte que insiste em sustentar. Há algo de profundamente melancólico nessa tentativa de permanecer relevante em um mundo que já seguiu adiante, e o longa captura isso sem recorrer a grandes gestos dramáticos. Tudo é pequeno, contido, quase banal – e justamente por isso, doloroso.
Ao evitar qualquer arco de redenção tradicional, a narrativa se ancora na repetição, no constrangimento e na recusa de oferecer ao espectador um alívio fácil. Cada nova tentativa de afirmação do personagem soa como uma variação do mesmo erro, como se ele estivesse condenado a revisitar suas próprias limitações sem jamais conseguir superá-las. E, ainda assim, há algo de profundamente humano nesse movimento. Não se trata de torcer por sua vitória, mas de reconhecer, ali, uma forma de existência que insiste – mesmo quando já não há promessa alguma de transformação.
Se o filme flerta com o niilismo, ele o faz sem se entregar completamente a ele. Diferente de uma visão que transforma o vazio em espetáculo, aqui há uma busca tímida por sentido – não como resolução, mas como gesto. Pequenas brechas onde o personagem parece, por um instante, perceber a si mesmo. São momentos raros, quase imperceptíveis, mas que impedem que o filme se reduza a um retrato cínico.
No fim, o que permanece não é a expectativa de mudança, mas a constatação de permanência. Esse poeta, com todas as suas falhas e ilusões, não encontra redenção – e talvez nem pudesse. O que o filme oferece, em vez disso, é algo mais honesto e, de certa forma, mais cruel: a possibilidade de continuar existindo mesmo sem ela.












