Até a metade inicial da segunda temporada de The Pitt fica a sensação de que estamos rodando em círculos: nenhuma situação dos personagens parece trazer algo novo, adia-se uma eternidade certos conflitos e os novatos na série nem comprometem muito menos são marcantes. Ficamos ali pelo carinho daquele universo, o ritmo insano, as histórias interessantes e por uma certa inércia. 

O showrunner R. Scott Gemmill, porém, tem um plano que se revela gradualmente de forma brilhante ao longo deste novo ano da premiada série da HBO. Apesar de criar acontecimentos inusitados como um ataque hacker ao sistema eletrônico do hospital e situar os episódios na correria (a)normal de um feriado como de 4 de julho, dia da Independência dos EUA, a grande força de The Pitt está na repetição. Repetição da pressão de ter a vida de alguém em suas mãos. Repetição de dar más notícias e do fracasso. Repetição das tragédias sociais de um país na sua frente. Repetição do cansaço de passar horas e horas sem poder sequer ver a luz do sol ou ir ao banheiro. 

Naquele palco da vida, onde as histórias mais chocantes, tristes e inusitadas passam a cada minuto na sua frente, é simplesmente impossível não se envolver. Afinal, como fingir costume quando você vê mais uma moça jovem ser vítima de estupro? Ou um trabalhador não ter como pagar o tratamento de saúde que irá salvar a própria vida? E o sofrimento da esposa e da filha diante desta situação? Da mãe com câncer que precisa dar adeus aos amados marido e filhos? Ou quando a truculência do ICE e de um Estado paramilitar invade um hospital sem respeitar médicos, enfermeiros e pacientes?  

A temporada mostra como isso consome a saúde mental daqueles médicos de forma brutal, derrubando até mesmo os mais invencíveis. A valente líder dos enfermeiros Dana (Katherine LaNasa), por exemplo, busca se manter em pé até para ajudar a coitada colega no primeiro dia de trabalho, mas, muitas vezes, se esconde em um canto para poder chorar um pouco.  

Retornando após meses de afastamento pelo desvio de medicamento do hospital por conta de vício, Dr. Langdon (Patrick Ball), alvo de desconfiança dos seus parceiros, se questiona ao longo do dia se estava mesmo pronto para voltar. Até mesmo o novato metido a sabichão James Ogilve (Lucas Iverson) aprende a pressão de estar ali da pior forma possível. 

Ninguém, entretanto, passa por mais apuros do que Dr. Robby: em mais uma atuação excepcional de Noah Wyle, o protagonista de The Pitt é a personificação da palavra pressão. Naquelas 15 horas, o sujeito é uma bomba relógio impedida de explodir pelo simples fato de que vidas dependem dele.  

A figura afável, dura, mas carinhosa do primeiro ano praticamente some a partir da metade final com frases absolutamente chocantes e um tratamento passivo-agressivo para com amigos e colegas. O sentimento de fracasso agrava tudo a ponto da revelação do que deseja fazer no último episódio, infelizmente, não surpreender: trata-se simplesmente de uma consequência natural de um ambiente tão doentio. 

Para equilibrar este lado terrível de uma realidade sufocada, The Pitt busca escapes ao longo da segunda temporada. A paixão pela medicina está presente em cada segundo dos procedimentos médicos através dos diálogos que somente um profissional ou estudante da área é capaz de entender e no detalhismo como uma ação é feita – a sequência do joelho arrebentado é uma delícia da nojeira deste tipo de série.  

Apesar do clima pesadão, os episódios também são capazes de arrancar boas risadas pela capacidade da estupidez não compreender limites. Da menina que resolveu colar os cílios passando pela família de patriotas sem noção até chegar na garota de biquíni com a bandeira dos EUA parecendo um pimentão ambulante de tanto sol criam alívios cômicos estranhamente eficientes.  

Por fim, impossível não citar a impressionante direção dos episódios, especialmente, do tenso e decisivo 12º capítulo. A precisão com que tudo em cena é coordenado segue sendo um dos maiores destaques de The Pitt, uma das melhores séries da atualidade disparadamente e capaz de nos ensinar a ter paciência para aproveitar uma construção dramática soberba.