Quando lançou Suspiria, em 1977, o grande Dario Argento vinha de uma trajetória cinematográfica, até então, de grande sucesso no cinema italiano. Ele praticamente pavimentou o subgênero giallo nos anos 70, difundido pelo maestro Mario Bava na década anterior. Argento redefiniu o giallo italiano com dimensões artísticas mais abrangentes, adicionando uma carga de terror psicológico e erotismo a partir de uma estética que romantizava a violência.

Prelúdio para Matar, lançado dois anos antes, em 1975, já era considerado um filme impactante dentro da temática do assassino misterioso, vestido com luvas e roupas pretas de couro e armado com uma lâmina afiada. É considerado a obra que revolucionou o segmento “gialliano” por meio de suas imagens e do uso de uma câmera poética, que se aventurava pelos assassinatos violentos.

Suspiria, que veio em seguida como sequência de um trabalho que consolidava o cineasta como um grande esteta das imagens, coroa, assim, o seu estilo autoral dentro do cinema fantástico. Aqui, ele inicia com um filme que parece dar certa continuidade a Prelúdio, ao apresentar um mistério e alguns assassinatos semelhantes ao giallo tradicional, para, logo em seguida, seguir por outros caminhos.

É aí que a obra ajuda a separar os grandes diretores do restante: Argento praticamente abandona essa fórmula para se embrenhar pelo desconhecido, por meio de uma atmosfera mais onírica e de pesadelo, transformando-se em um autêntico exemplo de horror artístico — aquele que não busca necessariamente provocar sustos, mas sim estimular o medo e o pavor a partir dos acontecimentos que ocorrem em torno da protagonista.

Esta é personificada na figura de Suzy Bannion (Jessica Harper), uma jovem americana que chega a uma prestigiada academia de dança na Alemanha. Ela logo descobre que a escola é uma fachada para algo sinistro e sobrenatural, marcado por assassinatos horripilantes e bruxaria, após uma série de mortes perturbadoras. Seguem três razões que eu considero Suspiria ser um marco revolucionário no cinema de terror.

Terror a 400 graus

Dario brincava ao dizer que o medo elevava a temperatura corporal a 370 graus centígrados. Com Suspiria, ele queria chegar aos 400! De certa forma, o cineasta sabia ao certo o que pretendia ao criar um pesadelo experimental crescente de horror, revolucionando a estética do gênero, substituindo o medo psicológico clássico por uma experiência sensorial intensa. Suspiria não tem medo de focar na beleza do macabro (o diretor nunca escondeu que Edgar Allan Poe era uma das suas influências cinematográficas), transformando a atmosfera e o design visual em protagonistas da narrativa.

O melhor exemplo disso é a abertura do filme. Ainda nos créditos iniciais, em tela preta, uma suave voz masculina anuncia o enredo enquanto tocam os acordes da trilha sonora (que falaremos em outro tópico). Após isso, a primeira imagem é o painel eletrônico anunciando os voos que pousaram. E aí Argento utiliza genialmente um travelling onde a câmera se movimenta entre pessoas no desembarque e temos a primeira surpresa: a iluminação do lugar é avermelhada. Logo de cara, entre a trilha erudita, a narração em off e a fotografia colorida, tudo isso nos insere num universo bastante específico, de um conto de fadas de horror, onde tudo pode acontecer.

Conto de bruxas assustador

Suspiria marca não apenas o primeiro filme de Argento fora do cinema giallo, como também a primeira obra da trilogia das “Três Mães” que ele criou, sendo seguida pelo ótimo Mansão do Inferno de 1980 e o esquecível Retorno da Maldição – A Mãe das Lágrimas de 2007, os três voltados para temas ocultos e sobrenaturais.

O trabalho inteiro vai sendo desenvolvido em torno de Suzy, e tudo o que acontece ao seu redor vai servir basicamente para deixá-la apavorada. E Argento apresenta isso das maneiras mais extravagantes ou impressionantes possíveis. É interessante como ele renuncia à lógica causal dos fatos, na qual a jornada de Suzy não é condicionada pelos acontecimentos, mas pelos sentimentos. Então, o espectador vislumbra nesta sensibilidade as sensações estranhas que a nossa heroína sofre na escola de dança.

Para isso, ele utiliza uma edição ritmada precisa para construir nas imagens e sons a ambientação de um conto de fada sobrenatural do mais puro e absoluto medo e pavor. Esse apreço pela estética facilita bastante a construção do conto de bruxas presente na folclórica Madre Suspirious e assim mostrar ao público a linha tênue entre o real e o onírico. O realizador ainda injeta uma sensualidade erótica no subtexto da história, flertando com a sexualidade lésbica, ousada para os padrões conservadores da época.

Um filme oral, poético e colorido

Gosto de dizer que Suspiria é um filme oral e poético, isto é, é uma produção para ser sentida e também ouvida. A oralidade vem de sua força como um autêntico terror sonoro. A trilha sonora da banda Goblin (que já tinha trabalhado com o diretor em Prelúdio) é um verdadeiro personagem dentro do longa-metragem. Consegue ser icônica, suntuosa e intrusiva, quase como uma serpente que adentra sorrateiramente o recinto, levando o horror em seu estado mais bruto, como um elemento de tortura psicológica, aumentando a imersão na trama sobrenatural através da carregada utilização de sintetizadores. 

Vale observar que toda a sonoridade é construída a partir de batimentos, sons e ruídos indefinidos, que se refletem no olhar de Suzy. Além disso, há o uso de vozes, sussurros e respiros na ambientação, algo que foi inovador para o gênero de terror na época. 

Já a segunda definição se refere à câmera “poética” e obsessiva de Argento. Você consegue notar que os movimentos dela pelos cenários expressionistas – que, por sua vez, praticamente engolem os personagens -encenam as mortes como rituais artísticos e técnicos, onde a violência sangrenta é meticulosamente composta para causar choque e impacto visual. 

Em Suspiria não é o desenrolar da narrativa que é importante (e nem mesmo os arcos dramáticos) e sim as imagens. Então, você tem imagens explícitas de violência, que ficam entre o extremo, mas também numa certa caricatura do exagero e do excesso de elementos agressivos. A morte para o seu realizador é uma dança de cores primárias saturadas, onde câmera, cortes e músicas ajudam a intensificar nosso sentimento fetichista em acompanhar o ato sobrenatural agindo colericamente sobre os personagens.

Vale ressaltar que o cineasta abandona a iluminação tradicional para utilizar cores vibrantes como vermelhos, azuis, verdes e amarelos com uma intensidade impressionante para criar a atmosfera de pesadelo. Méritos da fotografia de Luciano Tovoli que utiliza a película Technicolor em alto contraste para aumentar o brilho das cores primárias.

São por essas três razões que considero Suspiria um dos delírios visuais cinematográficos mais intensos. Mostra a admiração do diretor por Bava e o seu Seis Mulheres Para um Assassino que até então ocupava o posto de terror mais colorido já visto, até surgir a obra argentiana. 

O conto sobrenatural assinado por Dario Argento capta muito bem o imaginário da década de 70 em que o interesse pelo onirismo era muito forte e sinalizava um caminho fundamental para o horror explorar as fronteiras voyeurísticas sobre medos, culpas, desejos e sexualidades dentro do cinema de gênero. E o mais importante: Argento revela ao público em geral, que o conceito de que o horror só funciona no escuro era equivocado e que ele poderia ser colorido e brutal em produzir o medo.