Não é todo dia que um longa-metragem feito no Amazonas é exibido nas salas comerciais de cinemas de Manaus. Logo, podemos considerar uma grande conquista para o cinema amazonense o feito de “Sete Cores da Amazônia” e da diretora Ana Lígia Pimentel. A produção baseada na história em quadrinhos homônima de Ademar Vieira e Tieê Santos traz altos e baixos com elementos fortes típicos da produção local como também aspectos claros para serem aprimorados.

No longa, acompanhamos a história de Sarah (Maria Zen), menina que mora na periferia manauara com seus pais. Certo dia, ela parte ao lado da mãe (Sissy Mendes) para o interior com o objetivo de cuidar da avó doente (Petta Catão). Nesse processo, a narrativa explora questões pertinentes a região como a dicotomia urbano versus natureza e moderno e tradicional, além de temáticas universais como choque geracional entre mulheres da mesma família.

Uma história urbana infanto-juvenil

Sete Cores da Amazônia traz toda a estrutura narrativa voltada para o público infanto-juvenil, incluindo todo processo de assimilação da cultura regional para esse grupo. Desta forma, a produção caminha uma linha tênue em que o lúdico o boicota em boa parte da trama, ao mesmo tempo em que esta cresce de acordo com as descobertas ancestrais que Sarah experimenta. O grande trunfo da produção está no relacionamento entre as três gerações femininas desta família.

Por isso, é uma pena que haja tanto tempo de tela dedicado a mostrar o núcleo manauara. Entendo a necessidade de situar a condição em que Sarah e seus pais vivem na periferia da capital, mas perde-se muito tempo em situações que não fazem a trama avançar. Estes momentos servem apenas como constatação insistente do contraste direto das áreas urbanas precárias contra a zona rural ribeirinha. Para piorar, os personagens parecem sempre fora do fora de tom: as atuações soam engessadas, como se tivessem em um jogral aguardando que alguém ofereça a deixa para que executem “a sua parte”. A direção ainda sofre em posicioná-los no quadro de forma que a mise en scène fique fluida.

Por outro lado, a fotografia assinada por Robert Coelho e Pimentel em parceria com a montagem é muito importante nesse primeiro momento para oferecer um norteamento da vida periférica urbana, em cenas que apenas ambientam a narrativa. Afinal, Sete Cores da Amazônia se passa em dos bairros mais tradicionais da zona sul manauara e que vive uma discrepância social com um número elevado de igrejas, famílias vivendo em palafitas, a presença de frigoríficos e empresas de produtos regionais empregando as famílias do bairro de Educandos. Vejo como um acerto a escolha da localidade e mais ainda o trabalho espacial feito para que passe a mensagem que o filme se propõe.

Nessa esteira, temáticas amazônicas — as quais não deixam de ser universais — encontram um abrigo interessante dentro da narrativa. Por um lado, Pimentel consegue explorar de forma sutil e pertinente como se introduz a religião nas zonas periféricas e como atinge os núcleos familiares. No entanto, é ao sair da cidade que Sete Cores da Amazônia se empodera e distribui melhor suas temáticas, ainda que haja falhas nesse processo.

O lado B: Uma história na zona rural

Quando Sarah e a mãe vão para o interior encontrar a personagem de Catão, vemos uma nova narrativa se formar. Abandonamos as crianças correndo entre as palafitas, o ambiente caótico e desolador do Educandos para adentramos na natureza. Curiosamente, mãe e avó se tornam arquétipos do embate rural e urbano, tradicional e moderno, saberes científicos versus saberes ancestrais, do discurso colonizador em conflito com a visão dos povos originários. 

O contraponto se torna a relação entre avó e neta em quee acompanharmos a conexão com a ancestralidade. Há um processo muito especial de retomada de linhagem e o interesse pelo conhecimento indígena e progenitor que urge da criança. Essa integração rende algumas das cenas mais emblemáticas de Sete Cores da Amazônia, como uma despedida permeada de laços indígenas e ancestrais, mostrando mais uma vez que nossas peculiaridades fazem parte da seara universal.

É realmente uma pena que haja pouco tempo para se aprofundar em questões tão pertinentes a nossa trajetória sociocultural regional, prejudicando o filme na tentativa de abordar tantas temáticas caras ao cinema amazonense. A superficialidade prejudica o andamento de Sete Cores da Amazônia que parte para variadas direções. A bagunça narrativa permite, por exemplo, invocar o boitatá como um deus ex machina para exemplificar uma situação que era óbvia, fazendo o lúdico boicotar a obra em determinados momentos.

Apesar dos altos e baixos, “Sete Cores da Amazônia” é um filme que deve ser visto na tela grande. São as nossas temáticas sendo abordadas, os nossos figurinos e rostos tão característicos e únicos. Provando mais uma vez como existem inúmeras narrativas a percorrerem nosso território e que merecem ser apreciadas.