O texto contém spoilers sobre o fim de temporada de Euphoria

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Da história iniciada em aspirações adolescentes à realidade da vida adulta, Euphoria se encerra de forma marcante e completa. Desafiando a máxima do final feliz, o desfecho carregado de drama, melancolia e infortúnio para muitos personagens pode não ser prazeroso de se assistir, mas, possui muitos elementos marcantes principalmente ao se entregar totalmente ao estilo de faroeste.

O episódio inicia acompanhando Rue (Zendaya) em mais uma missão de vida ou morte. Mesmo com a contínua sobrevivência da personagem a tantos infortúnios na fazenda de Laurie (Martha Kelly), a atmosfera do episódio sugere uma derrota emocional a qualquer momento. A estratégia por detrás das escolhas de Alamo (Adewale Akinnuoye-Agbaje) foram muito bem planejadas pelo roteiro e criam um bom plot twist para a história.

Esse episódio evidencia como a série brinca com contrastes para gerar essa tensão, como a contradição consegue manter o público interessado mesmo que as cenas não sejam interessantes. Digo isto porque a postura condescendente de Alamo com Rue, um personagem tão conhecido por ser explosivo, gera uma calmaria contrária ao sentimento esperado dele pelo espectador.

No último episódio da série, Sam Levinson resgata o vício de Rue para enfatizar a complexidade da dependência química. Mesmo estando numa fase “limpa”, Alamo consegue acessar gatilhos de Rue e matá-la da pior forma possível: com o antigo vício.

Rue esteve próxima da morte várias vezes nessa temporada, entretanto, o que a matou foi algo trabalhado durante toda a série. Longe de ser apenas uma overdose, sua morte aborda o ato de oferecer droga a um dependente químico e como isso resgata hábitos, inseguranças físicas e psicológicas explícitas na personagem.

É uma despedida melancólica e dramática, toda cena utiliza o contraste entre a expectativa do que está acontecendo em uma alucinação com a triste realidade. A passagem de personagens e cenários das temporadas anteriores reforçam o clima de despedida e preparam o público para um restante de episódio vazio da protagonista.

As cenas seguintes são carregadas por Ali (Colman Domingo) com desempenho grandioso em conduzir a narrativa, comover e abordar problemas sociais ligados à dependência química. O texto ressalta o impacto pretendido pela série e a relevância desse caráter social.

Para ajudar a trama a seguir em frente sem sua protagonista, um salto temporal é acrescentado e isso enfatiza a falta de conexão entre narrativas. Jules (Hunter Schafer) encerra Euphoria como ponto central de abandono dos roteiros e falha com personagem. De todas as figuras restantes, ela tinha muito potencial para falar sobre Rue, a relação de ambas e mesmo como o último encontro das duas poderia ter desencadeado uma recaída.

O impacto da morte de Rue é muito mais sofrido pelo público que por suas companheiras de série. Existe uma grande apatia em torno do tema e o maior trabalho sobre isso é restrito a um diálogo entre Lexi (Maude Apatow) e Cassie (Sydney Sweeney) o qual dá muitas voltas para conseguir se justificar. O que sentimos é um grande desinteresse em finalizar totalmente essas histórias, como se a série colocasse reticências onde deveria existir um ponto final.

Sabemos que a produção encontrou uma sequência de limitações com as agendas dos atores e isso é perceptível na falta de conexão entre histórias e personagens que perdem força nesse final. Mas, ainda assim, era possível aproveitar esse elenco para cenas mais significativas, momentos realmente necessários.

Considerando todos esses fatores, a terceira temporada ainda consegue ter sua própria identidade sem abandonar totalmente sua essência. O conceito de novo faroeste muito bem adaptado para Euphoria mantém a trama com diálogos interessantes e entrelinhas no roteiro que resultam em acontecimentos importantes.

A série não finaliza de forma satisfatória, mas isso não representa um desfecho ruim. Acontece que, desde o princípio vemos personagens dúbios, com caráter errático e nos afeiçoamos por suas personalidades mesmo cheias de defeitos. O resultado dessas trajetórias não ensina o público através de uma superação ou mensagem de esperança, mas sim do enfrentamento de problemas e da aproximação com a realidade.