“Floresta do Fim do Mundo”, novo curta-metragem de Felipe M. Bragança e do amazonense Denilson Baniwa, é um mergulho na zona liminal entre torpor cotidiano e sabedoria ancestral. O projeto, que teve sua estreia mundial na mostra Forum Expanded da Berlinale deste ano, pede por plateias dispostas seus inventivos motes visuais e sua narrativa deliberadamente aberta.

A produção se centra em Suely (Iracema Pankararu), uma indígena que passa seus dias em uma grande cidade brasileira, com o cotidiano dividido entre casa, trabalho e bar. Quando ela começa a ter sonhos em que ela dialoga com uma floresta, sua ancestralidade começa a fazê-la se perguntar qual, de fato, é seu lugar no mundo.

O roteiro, escrito a quatro mãos por Bragança e Baniwa, vê no indígena participante da vida cosmopolita como um ser “entre lugares” e usa essa condição como ponto de partida para explorar questões de pertencimento e da natureza do mundo através de uma lente onírica e mitológica.

Suely, em sua quietude, anseia por proximidade e diálogo, tanto com a floresta que dá nome ao filme quanto com o mundo ao seu redor, simbolizado aqui através do romance que ela mantém com Jorge (Ítalo Martins, de “O Agente Secreto”). A dúvida que permanece no ar é por quanto tempo ela pode permanecer nesse meio de campo.

Optando por uma narrativa livre, com poucos diálogos, o filme se apoia no design de som e de produção para estabelecer seus pontos. Os desenhos nas paredes e uma criatura com um saco grande na cabeça, que aparecem no decorrer do curta, vem diretamente da mitologia indígena e ajudam a criar boa parte de sua tensão. O som também colabora com isso, com as vozes da floresta e os ruídos nos fones da protagonista reforçando a ideia de algo desconhecido se aproximando.

É notório que, durante seus 25 minutos de projeção, “Floresta do Fim do Mundo” está mais focado em questionar do que em responder. Como parte de uma trilogia de obras de arte, que inclui uma performance e uma instalação, é possível que suas respostas fiquem mais claras se exibido junto das outras partes. No entanto, como em todo bom sonho, entender vale menos que sentir – e se uma floresta fala, o mínimo a se fazer é escutá-la.