Em uma conversa cheia de significado, um passageiro indaga ao taxista Gilson (Robert Frank): “o que você tem esquecido pelas ruas?”. A pergunta ecoa no decorrer de Nosso Segredo, filme de Grace Passô que explora as tentativas de uma família negra belorizontina de esquecer, suprimir e escapar de um trauma. Ovacionado em sua estreia mundial na Berlinale desse ano, o projeto – que marca a estreia da célebre atriz na direção de longas – é cinema sensorial da melhor qualidade.

Ele se desenvolve em torno de dois grandes alicerces: um físico e outro psicológico. O primeiro é a casa que Gilson divide com a mãe Suely (Ju Colombo) e os irmãos Guto (Flip), Grazi (Jéssica Gaspar) e Tutu (Efraim Santos), onde quase toda a trama acontece. O segundo é o silêncio no qual eles vivem no desamparo de seu luto. O filme, então, acompanha como os personagens se movimentam, se esbarram e se confortam entre esses dois pontos que, aos poucos, vão se tornando um só.

O longa aposta em uma narrativa pausada e contida, dando amplo tempo para o público ter como observar como cada membro da família processa a perda. A maioria deles se lança em algum tipo de fuga de natureza individual: para Gilson, é o trabalho nas ruas; para Suely, é a rotina doméstica; para Guto, é o hedonismo boêmio; e para Grazi, é a depressão paralisante. Mais do que as portas que dividem seus quartos, o que mais separa essa família são as paredes de não-ditos que eles construíram ao redor de si.

A exceção é o caçula Tutu, menino sensível que percebe que há alguma coisa de errado mesmo sem a capacidade de entender ou verbalizar plenamente o que essa coisa seria. É através de seus olhos inocentes que os espectadores começam a notar a casa manifestando o peso que a família carrega nas costas através de sons e goteiras estranhas. De um ponto de vista de gênero, se os outros estão vivendo um drama, Tutu está vivendo um suspense.

Que Passô consiga mesclar essas duas verves de forma tão coesa fala muito sobre a visão que ela trouxe para o projeto. Usando “Amores Surdos”, sua primeira peça como dramaturga, como ponto de partida, ela cria um experiência que, mesmo com claros elementos teatrais, usa uma linguagem visual que é inegavelmente cinematográfica.

O desenho de som de Tiago Bello e o design de produção de Lucas Osório transformam a casa em um lar claustrofóbico, que parece definhar à medida em que seus habitantes se afastam cada vez mais uns dos outros. A câmera na mão da diretora de fotografia Wilssa Esser reforça a ideia de algo invisível à espreita, esperando a hora certa de se manifestar. Quando ele finalmente faz isso, os sentimentos represados da família se revelam uma enxurrada.

Progressivamente durante seus 107 minutos, o filme se permite transcender o naturalismo de suas cenas iniciais, fazendo mais uso de símbolos e metáforas para ilustrar seus pontos. É uma decisão corajosa que confia na capacidade das plateias de embarcar em sua jornada emocional. Nosso Segredo é um forte conto sobre os sentimentos que as pessoas não conseguem esquecer pelas ruas (parafraseando o passageiro de Gilson) e os assombram no escuro de seus lares.