Indicado ao Leão de Ouro e vencedor do Prêmio Marcello Mastroianni de Ator Revelação para Toby Wallace no Festival de Veneza de 2019, ‘Dente de Leite’ repercutiu positivamente pelos festivais que passou. Isso se deve principalmente à estreia da australiana Shannon Murphy (‘Killing Eve’) na direção de um longa-metragem, a qual acerta ao abordar um tema tão rotirineiro no cinema: o amadurecimento adolescente. Sim, já existem filmes coming of age aos montes assim como obras que retratam o câncer atingindo adolescentes, porém, a visão de Murphy sobre a temática cria uma ótima história acerca de morte, juventude e família, sem ter receio de deixar o público angustiado com a realidade proposta. 

Sendo também uma estreia para Rita Kalnejais no roteiro, “Dente de Leite” tem como protagonista Milla (Eliza Scanlen, conhecida por viver a estranha irmã de Amy Adams na minissérie “Sharp Objects”), uma adolescente com câncer terminal que se apaixona por Moses (Toby Wallace), um traficante viciado em drogas. Obviamente a proximidade de ambos não agrada aos pais da personagem, entretanto, a sua morte iminente torna possível a existência de um acordo que lhe mantenha feliz e perto de todos. Entretanto, a nova perspectiva de felicidade é melancólica e cercada de momentos desagradáveis para Milla. 

A grande dedicação do elenco para transitar entre a leveza de algumas cenas e a maturidade de outras, sem dúvida, se transforma em um dos pontos altos de “Dente de Leite”. No início morno do filme, alguns acontecimentos possuem notoriamente um peso na feição dos atores, como os diálogos entre os pais da garota, Anna (Essie Davis) e Henry (Ben Mendelsohn). Aos poucos, a construção dos personagens evolui e o elenco principal consegue acompanhar todos os estágios da doença de Milla. Nesse aspecto, Toby Wallace rouba os holofotes para si, sempre mostrando ao espectador o quanto ele eleva sua atuação a cada instabilidade do personagem. 

Apesar de possuir algumas cenas desinteressantes em seu primeiro momento, o longa consegue preparar o terreno para as cenas mais densas que começam a surgir na segunda parte. Durante toda a trama existe uma angústia notória envolvendo seus personagens, algo muito bem colocado na trilha sonora já que Milla e sua mãe possuem uma proximidade musical, sendo a trilha uma constante para transitar mais facilmente entre os momentos de felicidade e melancolia. 

MATURIDADE PARA EVITAR ROMANTIZAÇÕES 

Como um subgênero, filmes coming of age sempre retratam o crescimento pessoal, familiar ou profissional na adolescência. Nesse quesito gosto de pensar que ‘Dente de Leite’ é um coming of age elevado: suas discussões vão além do amadurecimento: elas perpassam questões mais sérias e urgentes. Sim, existem elementos clássicos do gênero como romance proibido, conflitos familiares e até mesmo a negação a antigos costumes pessoais, porém a existência do câncer para Milla permite uma relação de paridade com seus pais, tanto por seu amadurecimento frente à morte quanto pelos comportamentos errantes da família. 

A exemplo filmes recentes como ‘A Culpa é das Estrelas’ e ‘A Cinco Passos de Você’ sabemos que doenças terminais já foram utilizadas como recurso em produções deste gênero. E um dos pontos positivos de ‘Dente de Leite’ é justamente a abordagem do câncer de Milla porque ele não fica restrito à doença como outros longas adolescentes que romantizam essa situação. Mesmo com todos os efeitos da doença presentes no filme, o grande trunfo aqui é o foco em Milla e o amadurecimento sobre seus problemas. 

É possível perceber que Kalnejais possui o intuito de alcançar mais discussões importantes em seu roteiro. Embora isso fique somente em segundo plano, é compreensível a delimitação temática do longa e enfoque em uma narrativa coesa. Desta forma, ‘Dente de Leite’ consegue chamar atenção para a trama proposta desde sua primeira cena, sendo encerrada de forma melancólica e agradável ao mesmo tempo – tudo isso graças a abordagem de sua diretora que não deixa o longa parecer uma mera cópia de algo já visto anteriormente. 

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