Vulcões são impressionantes e curiosas formas da natureza, sem dúvidas, pois além de estruturas gigantes de beleza, força e magnitude, podem ser causadores de desastres naturais. A partir desse elemento, Erupcja se apresenta sem rodeios ou medo de expressar sua analogia escancarada, em que o grande conflito de sua protagonista se dá pela entrega incontrolável de seu estado de espírito após um tempo adormecido. 

Ambientado em Varsóvia, capital da Polônia, acompanhamos um casal que chegou à cidade para passar um momento romântico juntos. Rob (Will Madden) é  britânico e está pela primeira vez no local, enquanto a namorada Bethany (Charlie XCX) pertence à capital e conhece tudo ali. De imediato, notamos que há uma cumplicidade nos dois, mas uma silenciosa linha a separar a alma dessas criaturas. Enquanto Rob se entusiasma em desbravar aquele lugar e tentar agradar a sua companheira; da parte dela existe um olhar vazio e frio como se algo a perturbasse. Rob planeja pedir a mão de Bethany em casamento, e escolheu a cidade ao perceber que ali é um ponto especial para ela, só que a mulher, ciente do destino imediato e das intenções do rapaz, logo corre atrás da amiga Nel (Lena Hora) a qual encontra o que realmente persegue e procura: fuga da realidade e aventura. 

Para tanto, o filme de Peter Ohs estabelece essa relação curiosa e intensa entre as duas personagens de Hora e XCX, onde os elementos são apenas pincelados, com margem para a imaginação. É sabido que ambas se conhecem desde a adolescência, tiveram varias aventuras juntas regadas a muitas drogas sintéticas e ilícitos nas noites de Varsóvia, mas nada se explica sobre a verdadeira condição dessa amizade. Nel surge no início da obra como alguém solitária, dona de uma floricultura, e em um flerte de um relacionamento com uma moça, porém nunca esqueceu de verdade a presença de Bethany.  

Sem aprofundar os espinhos e os traços desse relacionamento, as faíscas desse encontro evidenciam marcas profundas em Nel, por isso que, com a chegada da personagem de Charlie XCX na vida dela novamente, é fácil pensar que existiria um conflito dali, o que não ocorre, tendo estas grandes aventuras pela cidade polonesa. A grande questão tocada a todo instante pelo filme é o encontro das duas ocorrer, por coincidência, durante a erupção de um vulcão em algum canto do mundo. Dessa forma, tudo que há em Nel, aquela intensidade toda, configura um teor irresistível para Bethany que não encontra isso na calmaria profunda de Rob. Por mais poética e lúdica que seja essa informação, quando apresentada no filme, soa como algo absurdo e esvaziado – como se o filme forçasse eventos únicos como parte de algo excepcional para a relação de Nel e Bethany. Não que o filme não possa se valer disso (toda tentativa é válida), no entanto, quanto mais as duas tocam nesse ponto aparentemente extraordinário, tudo ao redor mais se torna oco, ainda mais pelas ações da protagonista. 

O tratamento dado por Bethany ao seu namorado Rob é digno de pena, já que o frágil roteiro (assinado de forma conjunta pelos seus atores, incluindo XCX , Gora e Madden) leva a moça a negligenciar de forma irreversível o seu parceiro sem motivações maiores. “Ele não é lava”, diz ela em certo ponto. Logo, acontece um evento onde o casal está e Bethany encontra Nel e outros amigos, e, a partir dali, a história retrata a personagem como um estado de espírito, tirando seu estado humano completamente. Aqui, a obra ousa relacionar as ações de Bethany a de um vulcão explodindo querendo sentir e atingir mais e mais após tanto tempo inativo, e isso também permite ecos de uma busca incessante por uma maturidade nunca encontrada, mas os caminhos desviados foram tantos que se torna difícil abraçar a personagem e suas nuances. 

A direção de Ohs em Erupcja é crua e prática sendo competente em mostrar a cidade de Varsóvia e seus lugares vastos em que a câmera passeia  sem pressa e acompanha seus personagens. Lena Gora está bem e faz o que pode com sua personagem, a artista Charlie XCX faz uma estreia interessante como atriz e carrega sua personagem com a sobriedade que se pede, com Madden e Jeremy O. Harris participando bem pouco do filme. 

Erupcja é tentativa de retorno a moldes de um cinema independente de criação, sem muito polimento, uma ousadia artística pautadas pela força de seus atores, mas essa falta de tantos preenchimentos acaba por comprometer o filme como um trabalho digno de maior valor.