Tem uma canção de Marília Mendonça em que ela afirma que se apaixonou pelo que inventou de seu amante. Quando penso em “As versões que você fez de mim”, me indago se o monólogo escrito e interpretado por Clayson Charles não segue o mesmo caminho do eu-lírico dessa música e deposita nas mãos de uma terceira pessoa uma responsabilidade que é inteiramente sua. 

Dirigido por Roger Barbosa, “As versões que você fez pra mim” acompanha a madrugada de um homem (Charles) que acabara de se separar de seu companheiro (Andryo Curio). Entre questionamentos, reflexões e lembranças, o protagonista busca encontrar a si mesmo enquanto mergulha na dor de ter que superar um término infeliz. 

Ao som de “Lusis“, canção eternizada na voz de Cileno, algumas versões do protagonista se apresentam para confrontar o atual momento em que ele se encontra. Enquanto no presente, seus objetos artísticos como partituras, quadros estão espalhados pelo chão; sua versão criança fora desencorajada a não seguir o caminho da arte. Enquanto, no agora, ele está amargurado e isolado, no passado, viveu um romance que era marcado por poesia e muito amor. E é este motivo que o conduz a essa viagem de autoconhecimento, dor e memória. 

Roger Barbosa aproveita essa mistura de provocações para tentar criar um suspense, sem considerar que estamos na cabeça de um bêbado que passa por uma crise emocional. O colapso interno transparece por meio do uso de filtros tendendo para o azul e o cinza, ambos indicando estágios/versões diferentes do protagonista e a tristeza que o assola. No entanto, também abre brechas para discutir a vulnerabilidade da masculinidade negra. O filme poderia investir mais nesse aspecto, contudo deixa pequenos sinais, ao longo da narrativa, como a caixa em que o protagonista guarda as lembranças dos shows de Julio Luz (Curió). 

Incomoda, no entanto, que toda essa situação angustiante em que o personagem central se encontra, soe como ele responsabilizando um terceiro pelos seus próprios sentimentos e decisões. Afinal, estamos falando de versões que alguém fez de mim ou que eu mesmo criei para depender emocionalmente do meu parceiro? Enquanto Charles anda pela casa se lamuriando e jogando a responsabilidade de sua dor a outro, é inevitável não pensar como essas versões são inquietações levantadas por aquilo que ele não tem coragem de assumir e  de ser. Por isso, que a cena mais ousada do filme é tão importante para a quebra do ciclo emocional e o fim de uma ilusão amorosa.

Por outro lado, embora o roteiro seja baseado em um monólogo, a forma como Barbosa escolhe adaptá-lo — concentrando-se nas palavras de Charles, invés de mostrar mais do que falar — torna o personagem egocêntrico e narcisista em vários momentos. O fato dele sempre depositar no outro a responsabilidade pela difícil noite que está passando, já mostra o quanto seu olhar sobre si mesmo foge um pouco de um crivo mais crítico e racional. Não a toa, as versões que você fez de mim poderia se chamar as versões que fiz de mim para mim. Mas é mais simples culpabilizar o outro. 

“As versões que você fez de mim” tenta ser um filme intimista e reflexivo, mas a construção do protagonista se distancia desses dois aspectos. O resultado é um filme ainda interessante, mas que aposta em um caminho complexo de romantizar a responsabilidade afetiva. Aí não tem viagem de autoconhecimento que amenize.