Marcelo Gomes é um dos principais nomes do cinema pernambucano contemporâneo. Diretor de Cinema, Aspirinas e Urubus, seu longa de estreia, ele ajudou a projetar uma nova geração de realizadores do estado no cenário nacional e internacional. Selecionado para a competição do Festival de Cannes, o filme também marcou um momento importante para a produção cinematográfica fora do eixo Rio-São Paulo.

Agora, quase duas décadas após sua estreia, Cinema, Aspirinas e Urubus retorna às telas dentro da programação da Mostra do Cinema Pernambucano. Em conversa com o Cine Set, Gomes revisita a trajetória do filme, fala sobre a construção de um cinema feito a partir de uma perspectiva nordestina, as dificuldades de produzir nos anos 1990 e a importância das políticas públicas para a continuidade dessa produção.

O diretor também relembra o caminho até Cannes, a escolha de um elenco majoritariamente nordestino e como percebeu, ainda durante a leitura do roteiro, que havia encontrado uma história capaz de dialogar com o público.

Cine Set (Caio Pimenta) – Qual aspecto você considera ter sido o principal diferencial do cinema pernambucano para ter conseguido a projeção que alcançou?

Marcelo Gomes – Quando perguntam isso, eu digo: milagre. A gente não sabe explicar bem porque Pernambuco não é o estado mais rico da Federação e também não era um polo de produção cinematográfica. Então, como Pernambuco conseguiu essa visibilidade e uma produção tão constante no cenário cinematográfico, sendo talvez, depois de São Paulo, o terceiro estado com maior visibilidade na sua produção? É difícil explicar.

Ainda assim, há algumas questões que não podemos esquecer. Primeiro, Pernambuco sempre teve uma grande tradição cinematográfica. Tivemos o Ciclo do Recife, o Ciclo do Super 8 e, depois, o Ciclo dos Curtas, nos anos 1980. Essas ondas foram construindo uma massa cultural de pessoas que refletem sobre cinema e querem produzir cinema.

Recife também sempre foi um produtor de cultura em outras áreas. Tivemos a literatura regionalista nos anos 1930, mas sempre fomos um lugar de produção cultural muito grande. Isso vem desde o processo de colonização, com a produção da cana-de-açúcar, quando Pernambuco tinha um grande polo econômico. Acho que, onde a cultura passa, ela deixa marcas. 

Mas nada disso se explicaria se não houvesse uma geração que, com seus filmes, alcançasse visibilidade internacional. Podia existir toda essa tradição, mas os filmes não necessariamente alcançariam essa visibilidade. Isso também é mérito de uma geração que tinha um desejo profundo de contar histórias a partir de um ponto de vista completamente diferente.

Um ponto de vista que não passava obrigatoriamente pela Via Dutra, por São Paulo. Era o desejo de contar histórias com sua própria cidade, sua própria cor e seu próprio ponto de vista sobre o Brasil. Existia uma geração com muita gana de fazer isso.

Cine Set (Caio Pimenta) – Ainda falando em termos gerais, de que forma o cinema pernambucano conseguiu reduzir o estigma de que tudo o que vem de fora do eixo RJ-SP é regional? Sente isso ainda presente?

Marcelo Gomes – O estigma ainda existe, mas vem diminuindo aos poucos. Lembro que, na época em que Cinema, Aspirinas e Urubus foi selecionado para Cannes, um repórter de São Paulo perguntou: “Você faz cinema pernambucano?”. Respondi: “Meu amigo, se eu digo que faço cinema pernambucano, vou ter que me vestir de uma iguaria local, uma tapioca, um bolo de rolo”. Nunca vi alguém perguntar a um diretor de São Paulo ou do Rio se ele faz cinema carioca ou paulistano.

Eu faço cinema. Faço com meu sotaque, minha cor, meu ponto de vista, com toda a minha cultura pernambucana dentro dele. Construir a ideia de um “cinema pernambucano” já coloca a gente dentro de uma caixinha.

Seria natural que isso acontecesse porque era uma grande novidade. Mas precisamos lembrar que, durante a gestão de Gilberto Gil como ministro da Cultura, a política de descentralização foi fundamental para o país. Antes disso, já tínhamos O País de São Saruê, que abriu portas, além do cinema de Cláudio Assis e do meu próprio trabalho. Mas essas políticas de regionalização ampliaram, pouco a pouco, as possibilidades de outros estados produzirem.

Hoje vemos filmes produzidos em diferentes lugares do Brasil. Na nossa época, era inimaginável que quase todos os estados conseguissem fazer um longa. Era dificílimo fazer um curta em Pernambuco. Nos anos 1990, não havia escola de cinema nem meios de produção. E hoje estamos vendo o que é o cinema pernambucano.

Parece que foi um sonho, um grande sonho que aconteceu. Mas também houve muitas dificuldades. Lembro que, nos anos 1990, Cláudio Assis e nós nos unimos para pedir apoio a um empresário local para nossos curtas. Ele perguntou: “Vocês são americanos?”. Respondemos que não. Então ele perguntou: “Quem faz cinema é americano?”. Como se, por não sermos americanos, não pudéssemos fazer cinema.

Para chegar aos dias de hoje, foi uma luta de uma geração e também uma luta política. Pernambuco foi o primeiro estado a criar seu próprio edital estadual. Acho que esse é um caminho sem volta. Fico muito feliz que Pernambuco esteja falando para o Brasil e para o mundo por meio de seu cinema.

Cine Set (Caio Pimenta) – Cláudio Assis já falou sobre o desejo de romper, nos anos 1990, com a lógica dos “ciclos” do cinema pernambucano e construir uma produção contínua. Você considera que essa geração conseguiu alcançar esse objetivo? Ainda existe o risco de uma descontinuidade ou isso já ficou no passado?

Marcelo Gomes – O temor sempre existe. Tivemos um governo fascista no Brasil que quis destruir o cinema. Felizmente, foi derrotado antes de conseguir isso, mas houve uma paralisação da produção, porque o cinema de arte está atrelado, em qualquer lugar do mundo, a políticas públicas e de financiamento. Quando essas políticas acabam e não há mais apoio de instituições como secretarias de cultura, ministério e fundações, fica muito difícil para o cinema sobreviver.

Apesar da existência deste risco, fomos nos fortalecendo, nossas produções ficaram mais consistentes e o público foi crescendo. Havia uma preocupação em não deixar essa produção virar apenas mais um ciclo.

Quando comecei a produzir cinema, não existia escola de cinema. Então convidei jovens que queriam fazer cinema para integrar as equipes como estagiários e assistentes. Gabriel Mascaro, por exemplo, trabalhou comigo como assistente de direção. Muita gente que hoje faz cinema estava na equipe de Cinema, Aspirinas e Urubus. Um amigo chegou a dizer que, se você olhar os créditos do filme, metade das pessoas está fazendo cinema atualmente.

Isso também foi resultado de uma decisão política. Precisávamos formar pessoas, exigir novos editais e políticas públicas. A classe se uniu e também lutou por escolas de cinema. Hoje, Recife tem três ou quatro escolas. Tudo está mais consistente porque houve pessoas que lutaram muito no passado para que isso não se transformasse apenas em mais um ciclo.

Cine Set (Caio Pimenta) – Em uma entrevista para o Diego Medeiros, você fala que gosta de pensar um filme como conceituação refinada para orçamento pequeno. Diante disso, o que foi crucial para a etapa de preparação de Cinema, Aspirinas e Urubus?

Marcelo Gomes – Saber que tipo de filme você quer fazer,, como quer contar a história e qual é a importância dramatúrgica de cada elemento é fundamental. A partir disso, todas as dificuldades financeiras podem ser enfrentadas com criatividade e invenção.

A gente diz que nosso cinema é de baixo orçamento e alto conceito. Quanto maior a conceituação, mais você entende o cinema que quer fazer. Isso não torna as dificuldades financeiras mais fáceis, mas faz com que você as enfrente de maneira mais madura e consciente.

Queria que meu cinema tivesse esse espírito sertanejo, nordestino. Por isso, todos os atores são nordestinos. Poderia fazer outro filme, convidar atores famosos que não fossem necessariamente nordestinos, mas seria outro filme e talvez até mais caro. Também desejava trazer um sentimento quase documental, uma veracidade muito grande. Por isso, era fundamental ter esse sotaque da região. O único estrangeiro no filme é o alemão, que trouxemos da Alemanha. Foi caro, mas também era fundamental, porque Cinema, Aspirinas e Urubus fala de alteridade, do encontro entre duas culturas completamente diferentes.

A partir da compreensão dessas diferenças e da construção da amizade, começa-se a respeitar a identidade cultural de cada um. Isso estava no próprio conceito do filme. Por isso era fundamental ter um elenco de atores nordestinos e o meu ator alemão. A partir disso, a equipe entende que filme está fazendo e onde precisa investir.

Cine Set (Caio Pimenta) – Gostaria que você contasse sobre a história de enviar a cópia de Cinema, Aspirinas e Urubus para o Festival de Cannes e com ela ter sido aprovado.

Marcelo Gomes – A gente mandou um DVD com legenda em inglês que, na época, tinha uma qualidade baixíssima, porque não tínhamos condições de fazer uma cópia em alta qualidade. Mas o filme estava ali, presente. Independentemente da resolução, o sentimento do filme estava presente. Eles assistiram e isso foi o mais importante.

As inscrições para Cannes terminavam em maio e, antes mesmo desse prazo, recebemos uma carta com um vídeo falando de algo inédito que havia acontecido no festival. Eles perceberam uma singularidade, uma forma particular de contar a história do sertão: no ponto de vista, na fotografia e no conceito.

Era um sertão na encruzilhada entre o desenvolvimento e o arcaico, entre um Brasil que se modernizava e outro ainda arcaico, entre duas culturas: a do estrangeiro e a do local. Eles perceberam todos esses elementos, independentemente da qualidade técnica do material que enviamos. Tudo isso estava presente no filme.

Cine Set (Caio Pimenta) – Marcelo, como vocês perceberam que o público de Recife e do interior de Pernambuco começou a se reconhecer no filme? Em meio a tantos sacrifícios e ao baixo orçamento, quando vocês sentiram que a produção estava realmente dialogando com as pessoas, rompendo com a ideia de que cinema precisava vir do Rio, de São Paulo ou de Hollywood e mostrando o que era possível fazer em Pernambuco?

Marcelo Gomes – O primeiro momento foi no roteiro. Logo no início, convidei toda a equipe para fazer uma leitura conjunta. Os atores já tinham feito testes para as cenas, mas ainda não conheciam o roteiro inteiro. Foi muito bonito porque, ao final da leitura, todos estavam emocionados e começaram a aplaudir. Eles diziam: “Nossa, a gente quer contar essa história”. Foi ali que senti que havia algo importante, fundamental para ser contado.

Era um sertão apresentado de uma forma única. Um estrangeiro chegava àquela região e começava a observá-la, mas, de alguma maneira, era contaminado por ela. Aos poucos, ele passa o bastão para o sertanejo, que começa a dominar o filme e suas ações. Era um diálogo entre duas culturas que queríamos construir. Existem outros filmes maravilhosos ambientados no sertão, como Vidas Secas e Deus e o Diabo na Terra do Sol, mas, de alguma forma, eles não traziam essa modernidade: em Cinema, Aspirinas e Urubus, o cinema está chegando àquele lugar arcaico e o conflito entre duas culturas.

Isso dialogou com todos nós, brasileiros, porque vivemos em um país que é tudo isso ao mesmo tempo: tem ilhas de desenvolvimento e de subdesenvolvimento, de riqueza e pobreza, de conexão com o mundo e de isolamento. O Brasil é essa geleia geral e o filme pertence a tudo isso. É o encontro entre o olhar do estrangeiro e o do nordestino, no meio do sertão, com um alemão vendendo aspirinas para as dores e cinema para os sonhos.