Trinta anos depois de sua realização, Baile Perfumado permanece como um dos filmes fundamentais para entender a renovação do cinema pernambucano. Dirigido por Lírio Ferreira e Paulo Caldas, o longa transformou a história de Benjamin Abraão, responsável pelos registros de Lampião e seu bando, em um encontro entre a tradição do cangaço e a efervescência cultural do Recife dos anos 1990.

Em entrevista ao Cine Set, Lírio Ferreira revisita o contexto que tornou possível o filme e fala sobre a chamada “brodagem” do cinema pernambucano, a importância dos cineclubes para a formação de uma geração de realizadores e a ausência de escolas de cinema em Pernambuco naquele período. Para o diretor, a cinefilia e a união entre jovens artistas foram fundamentais para criar uma nova cultura de produção no estado.

Lírio também relembra a influência do Manguebeat na construção de Baile Perfumado, desde a retomada da autoestima artística pernambucana até a trilha sonora que ajudou a atualizar uma história ambientada nos anos 1930. Ao olhar para três décadas de distância, o diretor reflete sobre como aquele momento ajudou a estabelecer um modelo de produção marcado pelo afeto, pela colaboração e pela identidade própria do cinema pernambucano.

Cine Set – A pesquisadora Amanda Nogueira relata que aquele momento em que Baile Perfumado foi feito existia uma espírito que ela define de ‘brodagem do cinema pernambucano’. Todo mundo junto ali, assumindo várias posições e fazendo filmes. De que modo esta união foi decisiva para o filme e o que viria dali?

Lírio Ferreira – Esse termo criado por Amanda é muito assertivo. Todo filme é um retrato de seu tempo, e Baile Perfumado também representa aquele momento. Recife estava há 20 anos sem produzir um longa, mas tinha uma forte cultura cinematográfica, construída ao longo de quase 100 anos, desde o Ciclo do Recife e depois o Super-8.

Ao mesmo tempo, era muito difícil produzir um longa. No final dos anos 1980, jovens como Paulo Caldas, Cláudio Assis e eu fazíamos curtas, movidos pela inquietação e pelo desejo de transformar as coisas. Não havia faculdade de cinema, e essa vontade de fazer foi criando uma cultura de produção.

Quando chegou o momento de fazer um longa, entramos em um território novo. Estávamos acostumados aos curtas, mas, de repente, tínhamos um set com 80 pessoas. Foi nesse momento que surgiu essa “brodagem”, que também ajudava a enfrentar nossas inseguranças. Muita gente aprendeu ali, e Baile Perfumado reforçou esse vínculo.

Eu e Paulo dirigimos o filme, Hilton Lacerda escreveu o roteiro conosco e foi assistente de direção com Adelina Pontual. Cláudio Assis foi diretor de produção e Marcelo Gomes, assistente de produção. Mais do que uma experiência de formação, havia um momento em que todo mundo segurava a mão de todo mundo. Tivemos situações em que pensamos: “Se a gente parar agora, dificilmente consegue reunir essas pessoas novamente”. Foi essa união que permitiu ao filme avançar.

A partir daí, criou-se um modelo de produção muito forte em Pernambuco, com seus acertos e desacertos. A “brodagem” acabou funcionando como método de produção e se espalhou por outros grupos e equipes. E, sobretudo, criou uma característica muito forte do cinema pernambucano: o afeto. Acompanhando os filmes e suas equipes, vejo como essa relação rege muitas produções. Acho que isso vem justamente desse forte vínculo de “brodagem”.

Cine Set – Você falou sobre a ausência de escolas de cinema em Pernambuco e sobre como os cinemas comerciais exibiam principalmente filmes americanos. Nesse contexto, havia os cineclubes, como o Jurando Vingar, que também fazia referência ao cineclube ligado ao Ciclo do Recife. Em um ambiente no qual era possível assistir aos filmes, conversar e debater sobre eles, isso abria outras possibilidades para quem queria fazer cinema?

Lírio Ferreira – O Jurando Vingar foi importantíssimo nesse momento. Mas, antes dele, já existia uma tradição cinematográfica muito forte em Pernambuco, em parte pela posição geográfica do Recife, que era um dos principais portos de entrada da América do Sul. Por isso, as coisas chegavam muito cedo. Cerca de 30 anos depois da invenção do cinema, já existia um ciclo de filmes e longas-metragens na cidade na década de 1920.

Depois veio o ciclo do Super-8, nos anos 1970, que influenciou muito a nossa geração. No final dos anos 1980, Paulo Caldas, Cláudio Assis, eu e outros começamos a fazer curtas, formando uma nova geração de produção. Recife também tinha uma tradição de exibição muito forte: nos anos 1950, chegou a ter mais de 50 cinemas. Esse número caiu bastante e, no final dos anos 1980, restavam poucas salas, predominantemente dedicadas ao cinema americano. Mas havia espaços que exibiam cinema de arte. Lembro do Cinema do Parque e de outras salas que promoviam sessões de filmes franceses, italianos e mostras de diretores como Bergman. A gente conseguia acompanhar praticamente toda a filmografia dele. Isso foi muito importante para a nossa formação.

O Jurando Vingar, no início dos anos 1990, reforçou ainda mais esse movimento. Ele funcionava na Fundação Joaquim Nabuco, e havia uma forte presença de pessoas ligadas ao cineclubismo. Cláudio Assis, por exemplo, vinha desse movimento e também exibia muitos filmes em Caruaru.

No meu caso, e acredito que para muita gente daquela geração, o cinema nasceu da cinefilia. Como não havia escola de cinema, nem sequer pensávamos inicialmente em fazer cinema. Eu, Paulo Caldas e outros fomos estudar jornalismo; Cláudio Assis, economia. Eu jogava futebol, surfava e estudava jornalismo na Universidade Federal de Pernambuco, mas assistia a muitos filmes, quatro ou cinco por semana. Essa cinefilia foi fundamental para a minha formação. E o cineclube, sobretudo o Jurando Vingar, teve um papel importantíssimo nisso.

Cine Set – Quando se fala de cangaço, imediatamente se associa a Lampião e Maria Bonita. Baile Perfumado até os aborda, mas coloca o foco em Benjamin Abraão, responsável pelas filmagens do grupo. A que você até atribui este foco? Considera que há um simbolismo de trazer como protagonista uma figura que sempre foi colocada em segundo plano, como acontece tradicionalmente no Brasil com tudo o que não é do Rio-São Paulo?

Lírio Ferreira – O cangaço é um gênero muito brasileiro e talvez um dos mais filmados no país. Logo depois de Baile Perfumado, eu e Paulo fomos convidados pelo Itaú Cultural para fazer uma mostra sobre filmes de cangaço, e foi quando percebi a dimensão desse universo. Há desde obras-primas, como O Cangaceiro, que foi a primeira grande projeção internacional do cinema brasileiro em Cannes, até Deus e o Diabo na Terra do Sol e O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro. É um gênero muito brasileiro e, sobretudo, muito nordestino.

Quando decidi que queria fazer cinema, foi justamente durante o governo Collor. Fiz um curta e, logo depois, o cinema brasileiro praticamente parou. Pensei: “Quando finalmente decidi fazer cinema, o cinema acabou no Brasil”. Fui estudar em Londres e, quando voltei, em 1993, Collor já tinha saído, Itamar Franco estava no governo e havia uma esperança de retomada. Recife também vivia uma efervescência muito grande com o Manguebeat.

Lembro claramente de estar em um carro com Paulo quando, depois de voltar ao Brasil, falei: “Paulo, vamos fazer um filme juntos?”. Ele respondeu: “Vamos, mas vamos fazer um longa-metragem”, porque fazia 20 anos que Pernambuco não produzia um longa. Foi quando ele recuperou um argumento de Fernando Spencer, grande pesquisador, cineasta e documentarista, que também era repórter e crítico de cinema do Diário de Pernambuco. Ele tinha mais de 40 documentários e um argumento chamado O Repórter das Arábias, sobre Benjamin Abraão, o homem que filmou Lampião e seu grupo.

Fomos pedir autorização ao Spencer. Ele disse que não faria mais o filme e nos autorizou a desenvolver o roteiro, com uma condição: que depois emprestássemos as roupas de Lampião para ele realizar outro projeto, sobre o dia em que Lampião enfrentaria John Wayne. Era uma ideia maravilhosa de colocar frente a frente o cinema brasileiro e o cinema americano.

Foi a partir desse argumento que Paulo e eu, junto com Hilton Lacerda, começamos a desenvolver Baile Perfumado dentro do universo do cangaço. Aproveitamos justamente aquele momento de efervescência e de retomada da autoestima artística pernambucana. Em Pernambuco, a resistência sempre foi muito ligada à arte. Foi nesse encontro entre essa tradição do cangaço e a energia do Manguebeat que Baile Perfumado começou a tomar forma.

Cine Set – Lírio, qual foi o tamanho da importância do Manguebeat para o novo cinema pernambucano? Existiria com a mesma intensidade e força se não estivesse ligado a este movimento musical, cultural?

Lírio Ferreira – O cinema pernambucano existiria de qualquer maneira. O cinema que se faz em Pernambuco tem uma história, uma essência e uma vontade de fazer que vêm de muito antes. Então, acredito que essa retomada aconteceria de alguma forma. Mas, da maneira como aconteceu, o Manguebeat foi um ponto crucial.

O cinema pernambucano tem uma dívida com o Manguebeat — no bom sentido. Nem toda dívida é ruim; algumas são saborosas. E essa é uma dívida saborosa que temos com o movimento. Houve uma troca artística muito forte, uma conversa sobre o que estava acontecendo naquele momento. Foi um casamento muito bonito entre o Manguebeat e o audiovisual, e Baile Perfumado é um retrato muito claro disso.

Se pensássemos Baile Perfumado hoje, 30 anos depois, ele certamente seria outro filme, independentemente das escolhas estéticas ou de linguagem. Mas acho que a ligação com o Manguebeat foi fundamental porque trouxe uma espécie de atualidade para uma história ambientada nos anos 1930 e filmada nos anos 1990. A trilha sonora e toda a atmosfera sonora são responsáveis por imprimir essa contemporaneidade ao filme, que permanece até hoje. Acho que isso é algo muito marcante, emblemático e simbólico de Baile Perfumado.