Rever Túmulo dos Vagalumes cinco anos depois da primeira vez que assisti ao filme me colocou diante de uma sensação bastante estranha. Em 2021, a animação de Isao Takahata havia me atingido, e lembro de ter terminado o filme bastante emocionado, ainda que não tenha necessariamente chorado. Agora, em 2026, continuo reconhecendo a potência de uma das obras mais dolorosas do Studio Ghibli, mas também percebo uma distância que permaneceu praticamente intacta. Túmulo dos Vagalumes é um filme sufocante, melancólico e visualmente deslumbrante, mas em diversos momentos sinto que ele está tão preocupado em produzir o choque que acaba se afastando justamente da emoção que pretende alcançar.

Ambientado nos últimos meses da Segunda Guerra Mundial, o filme acompanha os irmãos Seita e Setsuko enquanto tentam sobreviver depois que os bombardeios destroem sua cidade e tiram deles a mãe. A guerra, entretanto, não é apresentada apenas pela dimensão dos grandes acontecimentos. Takahata encontra sua força quando transforma a destruição em pequenos elementos do cotidiano: as cinzas, o fogo, os alimentos que desaparecem, os corpos que se acumulam e, principalmente, os vagalumes. A animação tradicional desenhada à mão possui uma delicadeza que contrasta constantemente com aquilo que está sendo representado, enquanto a escolha por linhas mais suaves e marrons ajuda a criar uma aparência quase pictórica para aquele mundo devastado.

É nessa contradição que o filme encontra algumas de suas imagens mais bonitas. Os vagalumes iluminam a escuridão por alguns instantes antes de morrer, funcionando como uma rima visual para a própria existência de Seita e Setsuko. A beleza dessas pequenas luzes nunca está separada da consciência de sua brevidade. O mesmo acontece dentro da pequena casa onde os irmãos passam a morar. É ali que o filme concentra seu lado mais humano, permitindo que os dois construam uma rotina própria em meio à destruição. Eles brincam, conversam e inventam uma espécie de infância que a guerra havia roubado deles. A casa se torna um espaço de intimidade que não poderia existir da mesma maneira antes, quando a ameaça da morte ainda estava sempre presente.

Seita, por sua vez, tenta ocupar uma posição que é grande demais para ele. Como irmão mais velho, precisa encontrar comida, proteger Setsuko e tomar decisões que nenhum adolescente deveria precisar tomar. O filme não constrói sua personalidade de maneira particularmente elaborada, mas deixa evidente o peso dessa responsabilidade. Ele precisa agir como adulto enquanto continua sendo uma criança tentando entender o mundo ao seu redor.

Justamente por isso que alguns dos momentos mais dolorosos do filme são também aqueles em que Takahata menos parece interessado em provocar o espectador. Quando Seita leva Setsuko ao médico e descobre que ela está desnutrida, o diagnóstico parece quase banal diante de tudo que já aconteceu. O médico explica que ela precisa apenas ser alimentada, e Seita pergunta onde pode encontrar aquilo que salvaria sua irmã. A cena não precisa de uma grande demonstração de sofrimento. A própria pergunta carrega a resposta: eles estão vivendo em uma realidade na qual aquilo que deveria ser básico se tornou inacessível. Em poucos minutos, o filme consegue comunicar a ausência de qualquer futuro possível para os dois.

Nem sempre, porém, Takahata confia nessa mesma simplicidade. A morte da mãe é um dos exemplos mais evidentes. A mulher aparece gravemente queimada depois do bombardeio e, posteriormente, é colocada junto a uma pilha de corpos para ser cremada. A situação é naturalmente devastadora, mas a montagem parece mais interessada em garantir o impacto da imagem do que em construir uma aproximação emocional com a relação entre aquela mãe e seus filhos. Algo semelhante acontece durante o próprio bombardeio, cuja construção espacial me parece pouco clara a ponto de ter sido necessário retornar à cena para compreender exatamente o que havia acontecido. O problema não está necessariamente na rapidez da sequência, mas na maneira como sua montagem organiza aquele acontecimento.

Essa diferença se torna ainda mais perceptível quando Setsuko começa a sentir os efeitos da fome. Existe algo profundamente angustiante em assistir a uma criança perder as forças e delirar porque não tem o que comer, e parte dessa angústia ultrapassa o próprio filme. A distância entre 1945 e o presente desaparece quando lembramos que crianças continuam vivendo situações semelhantes em diferentes guerras pelo mundo. Mas essa indignação nem sempre se transforma em emoção cinematográfica. Em alguns momentos, fico diante das imagens reconhecendo toda a sua brutalidade sem necessariamente sentir a proximidade que o filme parece buscar.

Essa é a contradição que permaneceu comigo desde a primeira vez que assisti a Túmulo dos Vagalumes. Não consigo negar a beleza de sua animação, a força de suas imagens ou a maneira como Takahata transforma a guerra em uma experiência íntima. Pelo contrário: é justamente porque reconheço essas qualidades que me incomoda perceber como algumas das cenas mais fortes parecem depender tanto do choque. O filme mostra muito e fala pouco, mas nem sempre cria o suficiente para que aquilo que vemos se transforme em emoção. Quando confia nos personagens, nos espaços e nas pequenas situações, encontra uma força extraordinária. Quando parece nos conduzir até a emoção, essa força se torna mais distante.

Túmulo dos Vagalumes continua sendo um filme sobre a efemeridade. Os vagalumes iluminam a noite durante poucos instantes, assim como a pequena felicidade que Seita e Setsuko conseguem construir em meio à guerra. É por isso que minha relação com o filme permanece tão ambígua. Enxergo a beleza daquela luz, reconhecer tudo o que existe por trás dela e compreender perfeitamente a escuridão que a cerca. Só não tenho certeza de que essa beleza sempre consiga me alcançar da maneira como o filme espera.