No último dia 16 de setembro, demos adeus ao ator e cineasta Robert Redford. Protagonista de clássicos definitivos do início da Nova Hollywood como “Butch Cassidy” (1969), “Nosso Amor de Ontem” (1973) e “Todos os Homens do Presidente” (1976), o galã deu uma virada na década de 1980, se aventurando por trás das câmeras, como produtor e diretor. Foi assim que recebeu seu único Oscar por “Gente como a Gente”.
O longa apresenta a história de Conrad, adolescente complexado após ter presenciado a morte de seu irmão em um acidente. Ele sofre com a frieza e distância da mãe, ao mesmo tempo em que o pai tenta restaurar a harmonia do lar. É um drama familiar pesado, mas que não descamba para uma abordagem melodramática, com muitos choros e gritos; pelo contrário, a história é presa a uma abordagem extremamente sóbria e plana. Talvez tenha faltado um pouco de alma.
Em tradução livre, “Ordinary People” – seu título original – pode ser lido como “Pessoas Comuns”, mas realmente nenhum de seus títulos definem o teor da obra. Quem seriam essas pessoas comuns, gente como a gente? O que o filme quer nos mostrar? O drama do pobre menino rico e a matriarca de uma família tradicional que encobre sua dor para manter as aparências não deveria ser tão apático quanto é. A tragédia que abala a estrutura familiar é superficial na tela e seus desdobramentos são rasos, enquanto as personagens dialogam através de um roteiro morno e vazio. Talvez não seja fácil para todos se identificarem com os dilemas estruturais do privilégio ou com recursos de terapia.
A narrativa é monótona e as escolhas de direção de Redford são as mais básicas e sem vida possíveis; é quase como se estivesse assistindo a um daqueles telefilmes sobre dramas familiares milagrosos que de vez em quando estão em cartaz na “Sessão da Tarde”. “Gente como a Gente” é uma obra sem brilho e que parece ter medo de tocar na ferida do que seu roteiro tem realmente a oferecer. No final, Conrad está curado de seu trauma, após um mini-surto e uma rápida sessão de terapia, mas nunca sabemos o que acontece com Beth, sua mãe.
Ela talvez seja a personagem mais interessante do longa, uma mãe que aparentemente tinha a preferência pelo seu outro filho, que agora está morto, mas que ainda tem que se manter a imagem da “família de margarina” que foi educada a ter. É uma pena que um drama forte desses tenha sido reduzido a um adolescente tendo problemas com os pais e amigos. Em 2003, o autor de novelas Gilberto Braga, requentou a mesmíssima história em “Celebridade”, com pequenos adendos de heranças familiares e trocas de paternidade. Nela, vemos o lado do filho, da mãe, do pai e nada é concluído com uma fuga de última hora ou um abraço. Não que o filme precisasse de qualquer outro recurso melodramático, porque eles já os tinha suficientemente, só não os soube explorar.
Entre os maiores elogios que o “Gente Como a Gente” é como Redford soube lidar com os atores e extrair o melhor deles. Faz sentido, já que por umas boas décadas ele havia sido um, entre os grandes e bons, mas admito que não vi nada de espetacular. Em um entre os mil casos de fraude de categoria, Timothy Hutton venceu por seu Conrad o prêmio de ator coadjuvante, sendo, como é, o protagonista. Seu personagem está em, no mínimo, 80% das cenas – ou mais. Ele é até hoje, o mais jovem a vencer a categoria, então com 20 anos e sua inexperiência pode ser vista na tela. Muita cara de coitado, pouca veracidade. Donald Sutherland é apático. Mary Tyler Moore, como já pontuei, se destaca, ainda que o roteiro favoreça Hutton.
Na cerimônia de 1981 do Oscar, “Gente Como a Gente” saiu vencedor de quatro estatuetas, incluindo a principal categoria da noite, Melhor Filme, onde bateu “Touro Indomável” (1980) e Robert Redford saiu vitorioso sobre Martin Scorsese, conquistando seu único prêmio da Academia, até então (anos mais tarde, Redford foi homenageado com um Oscar honorário). Vide as vitórias de “Kramer vs. Kramer” (1979) no ano anterior, o triunfo do longa na premiação não é de se assustar. É um bait feito sob medida para isso.
Curioso que, em uma edição da coluna feita para homenageá-lo, a estreia na direção de Redford seja tão detonada. Mas não diminuo seu legado e contribuição para o cinema, incluindo a criação do lendário Sundance Film Festival. Robert Redford, que em paz descanse, deixou sua marca, só deveria ter vencido por “Golpe de Mestre” (1973) mesmo.















