Eli Roth, nunca um sujeito cerebral, parece só ter espaço nos miolos para filmecos de terror esquecidos por Deus. O que explica o título e o tom de seu O Sorveteiro: referências a um longa homônimo feito diretamente para as locadoras em 1995. Nele, Clint Howard, irmão de Ron Howard, interpretava um sorveteiro abilolado servindo guloseimas malignas para as crianças.
O que impressiona naquele filme feito por alguns trocados por um pornógrafo de quinta categoria, em sua primeira e única incursão fora do pornô, é como, em comparação à bomba de Roth, ele é praticamente um Encouraçado Potemkin. Claro, criticar o estilo visual do diretor de Feriado Sangrento é como chutar cachorro morto, mas nunca antes ele havia demonstrado tamanha preguiça na cadeira de direção.
Digam o que quiserem sobre sua saga O Albergue, mas aqueles filmes tinham personalidade — e até mesmo alguma poesia trôpega em seu sadismo pueril. O problema é quando você chega à meia-idade sem aprender a diferença entre cinismo e transgressão — é quando crimes como este seu O Sorveteiro são cometidos.
Teremos uma comparação curiosamente ilustrativa, apesar de um tanto injusta, se cotejarmos seu novo filme com o igualmente recente O Fim da Rua, de David Robert Mitchell. Ambos têm início com os signos usuais de um subúrbio americano: gramados verdes, crianças brincando, sol a pino e asfalto como um tapete. E ambos passam o restante de suas projeções bombardeando-nos com imagens da destruição desse mesmo paraíso.
Mas a dissolução da comunidade perfeita em Mitchell, filmada com o máximo de sadismo que a censura PG-13 permite, traz uma genuína pontada de dor consigo. Porque o sujeito claramente está partindo de um lugar de investimento pessoal, há peso no fato de que, desde o primeiro instante, aquele idílio está fadado ao fracasso (a não ser que se apele ao deus ex machina do cinema).
Se Mitchell parece investido no seu material, Roth está no piloto automático. Em O Sorveteiro, ele majoritariamente se limita a reproduzir imagens da memória recente — as crianças maléficas em A Hora do Mal e o mutismo do palhaço Art em Terrifier, a saber. Algo inusitado em se tratando de alguém que fez uma homenagem a todo um ciclo de filmes italianos semi-obscuros dos anos 1970 e 1980 com Canibais.
Mas o ethos desta vez parece ser o do “tanto faz, tanto fez” — nesse sentido, a pobreza dos efeitos visuais e dos grafismos ocasionais, com os devidos retoques da IA generativa, são apenas prova dessa indolência. Mais do que estar em sintonia com os filmes classe Z que tanto ama, Roth está apenas sendo preguiçoso.
Não ajuda nem um pouco que O Sorveteiro seja Roth em sua verve mais abertamente cômica (seu Feriado Sangrento, que compartilha um tom semelhante, é um de seus filmes mais esquecíveis). Aqui, o palavrório dos personagens é incessante, mas não há uma piada sequer que acerte o alvo. O diretor claramente acha hilário mostrar crianças desmembrando os adultos do bairro e falando palavrão, mas a piada cansa em pouquíssimas cenas. Mal chegando a 90 minutos de duração, O Sorveteiro se revela uma daquelas experiências tortuosas que validam definitivamente a Teoria da Relatividade.
Precisamos apresentar a trama? Em linhas gerais, as crianças do bairro se transformam em zumbis assassinos graças às guloseimas geladas de um sorveteiro misterioso (Ari Millen, que ao menos parece estar se divertindo). Apenas um pequeno grupo de infantes resiste aos encantos de seus sorvetes e picolés, mas, infelizmente, nenhum desses pobres atores mirins têm carisma o suficiente para gerar qualquer interesse. O estúpido texto que Roth lhes fornece também não ajuda.
Termina por aí. Claro, há sangue e tripas aos baldes — mas o que vai te fazer vomitar é a tremedeira incessante da câmera sempre que Roth tenta imbuir intensidade à ação. Não adianta: tudo é inconsequente, cínico e calculado. A essa altura do campeonato, Eli Roth é tão transgressor quanto uma criança roubando dinheiro dos pais para comprar paçoca.















