A improvável amizade entre um piloto americano e um ex-agente da KGB em meio a Guerra Fria nasce na mente da dupla de diretores John Francis Daley e Jonathan Goldstein após assistirem Top Gun: Maverick. Com essa oportunidade de se divertirem com a atmosfera dos filmes de ação oitentistas, surge Mayday, produção original da Apple, que satiriza dois polos antagônicos: o heroico americano contra o inimigo soviético em uma ação enérgica, apesar de não escapar de uma fórmula telegrafada.
Cientes dessa intenção, os diretores encontram utilizar a veia cômica da história para resgatar o clima clássico do estilo “Buddy Cop”. Além disso, a trama se situar na guerra fria serve para traçar um paralelo com a polarização atual que o mundo enfrenta em que o outro é visto com desconfiança e como adversário. A partir desse ponto, o longa aproxima duas gerações históricas, mostrando que o tempo passou, mas o discurso se mantém até hoje.
Na ação escapista, a câmera se comporta de forma dinâmica, acompanhando o balanço e movimento de algum objeto ou personagem, seja uma gaveta ou porta de um carro se fechando, na visão sendo direcionada ao foco principal da cena ou na transição visual. Esse fluxo da direção cria uma vivacidade para os momentos de ação, assim como confere uma câmera atenta às situações, sempre participativa e acima de tudo preocupada em apresentar um tempero para a ação.
Somado a isso, a obra gosta de quebrar as perspectivas convencionais de cada país no longa. A ideia do nacionalismo americano e a perfeição dos EUA são desconstruídas para uma nação hipócrita, que esconde seus erros. Por outro lado, o povo russo ganha uma humanização. Taxados como inimigos soviéticos sem alma, o longa dá empatia a eles, como na cena em que os protagonistas são abrigados na casa de uma família russa. Ainda assim, uma crítica que ambos os países compartilham é como a manipulação dos poderosos constroem narrativas perigosas.
A jornada de pessoas contra o regime é centralizada na figura do Nikolai Ustinov, vivido por Kenneth Branagh. O arco de personagem mais interessante é comandado por ele, já que traz uma situação irônica de um russo almejando o sonho americano. Nesse ponto, o filme Top Gun – Ases Indomáveis funciona como um símbolo desse desejo. A abordagem se torna uma espécie de afronta engraçada ao regime, colocando o personagem como uma sátira e um instrumento de resistência. O carisma e a presença física do ator nas cenas de ação tornam o personagem ainda mais marcante e cativante.
Entretanto, apesar de apresentar tantos tópicos interessantes e relevantes, o roteiro adere para uma estrutura previsível do início ao fim. A simplicidade excessiva acaba diminuindo o peso das ideias e do impacto do filme. As reviravoltas e mudanças que ocorrem não surtem efeito pois são óbvias conforme a narrativa se desenrola. O orçamento limitado do filme aparece em momentos mais grandiosos. Muitas vezes, os efeitos digitais em automóveis ou em cenários transmitem uma aparência artificial.
Com uma boa oportunidade em mãos, o filme desperdiça a presença de Maria Bakalova. A sua personagem prometia uma importância, mas é mal desenvolvida e aproveitada pelo roteiro. Essencial para o arco dramático de Nikolai, ela lidaria com uma temática delicada e muito necessária, que é a perseguição dos homossexuais na Rússia. A personagem foi reduzida a uma participação de luxo ao invés de uma chance de aprofundar essa questão e fomentar mais discussões.
Apesar da comicidade latente de Ryan Reynolds, o ator dá um tratamento um pouco mais comedido ao seu piloto Troy Kelly. Diferente de Branagh, seu personagem tem um arco mais genérico, do soldado que deixou de viver sua própria vida em prol do trabalho. Para dar uma motivação mais íntima, o filme insere uma relação paternal em que o pai é um respiro a vida “workaholic” do filho. Mesmo que a interação dos personagens dê certo pelo carisma dos atores, o personagem de Branagh acaba roubando mais a cena que o de Reynolds.
Mayday é um lembrete simplório da periculosidade da polarização ideológica e como ela cria barreiras artificiais. Preferindo se abster de uma discussão mais acalorada de suas temáticas, o filme prioriza seu entretenimento fugaz e uma revisitação descontraída aos filmes de ação dos anos oitenta. A velha história de dois indivíduos de lados opostos convivendo e aprendendo entre si está aqui, só que num verniz mais político e paródico.















