Rosebush Pruning é um filme sobre uma burguesia que transforma o próprio vazio em conflito. Sem problemas materiais que ditem sua rotina, aquela família precisa fabricar crises para escapar do marasmo. Comprar algo difícil de encontrar ou satisfazer uma compulsão sexual se tornam pequenas conquistas dentro de uma existência cercada de privilégios. O desejo domina todos eles como uma espécie de maldição familiar, enquanto permanecem enclausurados naquela casa, submetidos à presença de um pai abusivo e presos a um falso conto de fadas.

Gosto de como Callum Turner conduz essa história por fragmentos. A narrativa entrega informações aos poucos, e a montagem reúne essas peças conforme os acontecimentos avançam. O problema está no que o filme faz com os personagens depois de apresentá-los. Riley Keough é uma das figuras mais interessantes e menos aproveitadas, ao lado de Elffie. Elas ocupam posições opostas dentro daquela estrutura: enquanto Elffie é uma trabalhadora tentando conquistar o próprio espaço e encontra em um dos irmãos, vivido por Jamie Bell, alguém de quem gosta e que também possui os recursos que ela não tem, Riley se movimenta pelo ciúme e pelo conflito. Essa relação oferece ao filme um terreno fértil para trabalhar desejo, classe e ressentimento.

Karim Aïnouz, porém, prefere a composição do plano à tensão dessas relações. O filme quer criar imagens estranhas quando deveria fazer com que elas nos atingissem. A casa deveria se tornar sufocante, mas o enclausuramento permanece restrito aos personagens. Não sentimos a mesma prisão.

E isso não acontece por falta de recursos visuais. Hélène Louvart, diretora de fotografia que já havia trabalhado com Aïnouz em A Vida Invisível e Motel Destino, encontra imagens capazes de transformar aquela realidade em algo próximo de um sonho. A cada plano, existe a percepção de que aquela história pode mergulhar em um lugar cada vez mais sombrio e macabro, permeado por abusos, compulsões e temas profundamente adultos. Louvart entende como traduzir o texto em imagens e cria uma atmosfera que aponta para algo muito mais perturbador.

O problema é que essa atmosfera fica encarregada de produzir sozinha o peso da história. Os planos carregam uma estranheza que a direção não consegue transformar em experiência. A fotografia sugere o pesadelo, mas a encenação não consegue fazê-lo nos atingir. É aí que está o principal problema de Rosebush Pruning: há um roteiro interessante e uma fotografia capaz de materializar sua bizarrice, mas a direção não leva nenhum dos dois à máxima potência.

Isso entra em choque com uma característica essencial do cinema de Aïnouz. Seus espaços costumam carregar uma temperatura própria. O design de produção, os corpos e a sexualidade transformam os ambientes em extensões dos conflitos, criando uma experiência física que aproxima o espectador daqueles personagens. Em Motel Destino, por exemplo, o sexo funciona como instrumento de poder, trabalho, sobrevivência e violência. O desejo não está ali apenas como sensualidade: ele interfere diretamente nas relações.

Em Rosebush Pruning, essa dimensão desaparece. Os personagens são sexualmente compulsivos, mas o filme não transforma essa compulsão em uma força capaz de contaminar o espaço ou as relações. A sexualidade existe como característica dos personagens, não como elemento dramático que nos envolva. O resultado é um filme frio sobre pessoas que deveriam nos causar desconforto.

Isso se torna ainda mais evidente diante da quantidade de estímulos que o roteiro oferece. A disputa entre os irmãos, a chegada de Elffie, sua relação com o personagem de Jamie Bell, o ciúme de Riley Keough e a presença da matriarca interpretada por Pamela Anderson, além de sua morte misteriosa, poderiam produzir uma dinâmica familiar cada vez mais angustiante. Em vez disso, esses elementos são apresentados como acontecimentos que se acumulam sem ganhar força emocional.

É nesse ponto que a aproximação com Yorgos Lanthimos se torna problemática. O texto de Efthymis Filippou, colaborador recorrente de Lanthimos, traz uma estranheza que poderia dialogar com Aïnouz. Mas a encenação se aproxima tanto dessa referência que o filme perde parte da identidade do próprio diretor. A tragédia grega, o humor desconfortável e o absurdo estão presentes, mas a linguagem que os organiza pertence muito mais ao universo de Filippou e Lanthimos do que ao cinema que Aïnouz construiu.

O minimalismo da encenação também enfraquece essa estranheza. Alguns planos são genuinamente bizarros e revelam o potencial de um espaço que poderia render muito mais, mas a forma não encontra a mesma potência emocional das relações. Rosebush Pruning acumula imagens e acontecimentos quando deveria transformá-los em experiência.

Por isso, o filme ocupa um lugar estranho na filmografia de Karim Aïnouz. Há elementos que poderiam dialogar naturalmente com o diretor, mas a maneira como são articulados o afasta de sua própria linguagem. A quentura, a sexualidade e a sensação de sufocamento que tornam seus filmes tão particulares dão lugar a um exercício de aproximação com Lanthimos.

Rosebush Pruning é um filme de acontecimentos que não se transformam em consequências. Ele tem personagens, conflitos e imagens capazes de produzir algo muito mais incômodo, mas escolhe observá-los à distância. Ao tentar encontrar a estranheza de outro cineasta, Karim Aïnouz acaba deixando escapar aquilo que faz seu cinema ser tão singular. É uma experiência curiosa dentro de sua filmografia, mas também uma das mais esquecíveis.