Tudo bem que Tolstoi já dizia que as famílias infelizes são infelizes à sua maneira, mas os Taylors realmente levam isso a outro patamar. O clã no centro de “Rosebush Pruning”, novo longa de Karim Aïnouz que teve sua estreia mundial na Berlinale desse ano, é composto por parentes deformados – e conectados – por seus desejos e traumas. Com um ethos sexual e tresloucado, o filme tem um pé na fábula e outros nos filmes exibidos no Supercine.
A porta de entrada do público para o microcosmo dos Taylors – expatriados americanos vivendo uma vida suntuosa na Espanha – é Edward (Callum Turner), que começa a nutrir um desejo de escapar do seu seio familiar. Quando seu irmão Jack (Jamie Bell), almejando a mesma coisa, sinaliza que vai morar com a namorada, tensões familiares vêm à tona, tornando as micro agressões do cotidiano da casa macro.
Livremente inspirado em “De Punhos Cerrados”, filme de estreia do diretor Marco Bellocchio, o roteiro de Efthimis Filippou transforma a família burguesa de seu material-base em uma família herdeira e milionária, bem como adiciona elementos queer à trama. A primeira decisão ajuda a tirar o filme do território da tragédia e pô-lo no da sátira. A segunda faz do desejo sexual o grande agente desestabilizador da história.
Esse viés do desejo – que encontra ecos em outros filmes da filmografia de Aïnouz, como “Motel Destino” – ganha ainda mais força aqui considerando o que os Taylor, pela sua condição econômica, são seres desprovidos de anseios. As atividades a que se dedicam (a mais notória delas, o acúmulo de itens de moda de luxo) dizem mais sobre sua necessidade de reafirmar seu status do que constituem paixões genuínas.
Sem poder depender muito de interesses para mover a trama pra frente, Aïnouz e Filippou dedicam boa parte dos 97 minutos de projeção nas interações da casa e na forma perniciosa e codependente essas pessoas se agridem diante do seu analfabetismo emocional. Em entrevista durante a Berlinale, Aïnouz disse não acreditar que os Taylors sejam disfuncionais, mas isso não muda o fato de que eles são criaturas fúteis e tacanhas.
A exploração desses temas, considerando as colaborações prévias de Filippou com Yorgos Lanthimos, tornam a comparação entre esse projeto e a obra do diretor grego inevitáveis. No entanto, Aïnouz imbui esse filme com uma sensualidade que o coloca em diálogo mais com a série “The White Lotus” do que com a Nova Onda Grega. Mesmo em seus momentos mais abjetos, o cineasta nunca trata a sexualidade de seus personagens com ironia ou desprezo.
As formas como essa sexualidade transborda e encontra – com o perdão da expressão – seu clímax devem afastar certos públicos, como aqueles indispostos a acompanhar os problemas de uma família rica e insuportável. Como objetos de sátira, é impossível negar que os Taylors são um alvo fácil. De fato, o longa é mais bem-sucedido justamente nos momentos em que propõe à plateia que se identifique com eles.
“Rosebush Pruning” não está dizendo (nem está tentando dizer) nada de exatamente novo dentro do filão atual de filmes críticos aos ultrarricos, mas tem humor ácido e apuro estético de sobra para entreter cinéfilos aventureiros. Poucas vezes a infelicidade foi tão divertida.
Crítica direto do Festival de Berlim 2026













