As ficções distópicas têm como prerrogativa imaginar futuros possíveis, ancorados na realidade, onde Estados totalitários e autoritários e/ou tecnologias nefastas submetem suas populações a situações de opressão extrema. “Todo o Sentimento”, o novo filme da dupla Ary Rosa e Glenda Nicácio, imagina um desses cenários distópicos a partir de um marco bem recente da história brasileira: os famigerados ataques de 8 de janeiro de 2023 em Brasília (DF). A abertura com imagens de arquivo nos relembra de imediato a sucessão de acontecimentos lamentáveis desse dia e, em seguida, nos questiona: “e se o pesadelo fosse real?“.

Nessa realidade alternativa, a extrema direita foi bem-sucedida em sua empreitada e, quatro anos depois, em 2027, está devidamente instalada uma ditadura fascista neopentecostal no país, em que palavras como “cu” são proibidas, a previsão do tempo do jornal apresenta o arco-íris (ou “refração de luz”) como uma ameaça perigosíssima que pode incitar pensamentos relacionados à “pederastia compulsória” nas crianças e a TV exibe 24h por dia programas de figuras como o pastor “Silas Macedo” e a “Tia Crentinha”.

É nesse Brasil arrasado que o cineasta aposentado cadeirante Henrique (Aldri Anunciação) vive sozinho, em uma casa colonial no interior do Recôncavo Baiano. Sua rotina melancólica e ermitã é interrompida de repente quando o jovem Gustavo (Lucas Leto), introduzido de imediato como um personagem muito mais solar em contraponto a ele, aparece um dia à porta da sua casa, se apresentando como um jovem cuidador enviado por um amigo para ajudá-lo. 

Apesar da resistência inicial de Henrique, é claro que, a partir daí, os dois irão conviver juntos, se aproximar e, finalmente, se envolver amorosamente, mostrando a potência do amor como uma forma de resistência ao autoritarismo. Até que ponto, porém, essa mensagem se sustenta por si mesma?

Afinal, por mais nobre que seja a premissa, “Todo o Sentimento” é vítima da fragilidade das suas construções. Do ponto de vista do romance, por exemplo, o relacionamento de Henrique e Gustavo não se desenvolve de maneira natural, sempre em um tom de descompasso até mesmo nos diálogos, em que os dois parecem estar em filmes diferentes – um mais empostado e teatral, outro mais natural. Para completar, o longa apresenta uma solução fácil para explicar a aproximação do casal, que reside em se transformar repentinamente em uma sequência de “Ilha” (2018), dos mesmos diretores. É um salto metalinguístico na história para tentar explicar a fascinação de Gustavo com Henrique.

Já do ponto de vista da própria distopia, “Todo o Sentimento” tenta esticar a corda desse futuro possível, mas as situações descambam na construção de um mundo que não parece suficientemente real. Temos vislumbres daquele Brasil, como um ataque homofóbico “zumbi” que surge do nada ou uma criança à lá juventude hitlerista, mas esses elementos não conversam entre si de forma coesa. Ao mesmo tempo, as alegorias não saem do lugar do óbvio e da caricatura por si mesma, e vão se acumulando e cansando gradualmente a narrativa, como é o caso do segmento de uma música infantil baseada na infeliz máxima conservadora do “menina veste rosa, menino veste azul”.

O filme quer ridicularizar essas figuras que tanto conhecemos da extrema direita, mas a ausência do próprio estado de repressão enfraquece a denúncia pelo caminho. Afinal, quem os vigia ou os pune quando Henrique e Gustavo enfim trocam carícias ou entoam “cu” a plenos pulmões? Em boa parte da história, o casal vive alheio ao próprio mundo do longa.

Essa repressão surge com mais força, finalmente, em um ponto de virada do filme, em que descobrimos o motivo da paraplegia de Henrique, mas daí decorre outro problema: uma abordagem problemática da deficiência, quando se descobre que a situação do protagonista é resultado de uma “cura gay” empreendida pelo Estado. Ora, pessoas em cadeiras de rodas não são capazes de viver sua sexualidade então? Ainda que acidentalmente, se traça uma relação entre a condição paraplégica e uma espécie de “castração” – além da menção a um “cinema paralisado” ao se referir ao próprio personagem.

No palco do 59º Festival de Brasília, minutos antes de apresentar o filme, a diretora Glenda Nicácio afirmou como um ato de resistência que “ninguém vai acabar com o nosso tesão”, lema que o próprio filme ecoa em seus momentos finais. É uma pena, no entanto, que o tesão de “Todo o Sentimento” esfrie tanto pelo caminho e não excite tanto quanto a sua premissa podia oferecer.

“Todo o Sentimento” integra a Mostra Competitiva de Longas-Metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.