Não é de hoje que se afirma que o eleitor brasileiro médio tem memória curta. Em “Tudo é Tempo”, temos a oportunidade de elaborar sobre essa máxima a partir de quatro eleitores de uma mesma seção, acompanhando como suas escolhas vão flutuando ao longo de 20 anos entre lugares inesperados até para eles mesmos.
O documentário dirigido por Marcos Guttmann nasce exatamente no dia do segundo turno que elegeu Lula como presidente pela primeira vez, em 27 de outubro de 2002. Guttman escolhe, aparentemente de modo aleatório, quatro personagens que têm em comum apenas o fato de votar no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro. São eles: Cristiane, uma médica infectologista de classe média que sonha com o próprio apartamento; Fernando, um trabalhador preto da periferia, apaixonado por samba e orgulhoso por “se virar”; Carlos, jovem politizado, filho de imigrantes exilados envolvidos com luta armada; e Heber, um poeta e desempregado nato, como ele mesmo afirma.
Não há um planejamento exato de como, quando e onde o experimento vai parar, mas a ideia inicial é entrevistar cada um deles anualmente para um balanço das suas vidas e suas percepções. Esse projeto segue até as eleições de 2006, é pausado e então retomado nas eleições de 2018, já no cenário polarizado pelo bolsonarismo.
Nesse sentido, a montagem assinada por Arthur Frazão é eficaz ao contrapor trechos dos quatro entrevistados que mostram suas mudanças, diferentes crenças e visões pessoais e recortes de raça, classe e ideologia ao longo desse tempo. Em certo momento, por exemplo, Fernando afirma que a esperança é fruto do trabalho constante; na cena seguinte, Heber discursa sobre a inutilidade em nutrir esperança.
Esse experimento, porém, não é só de mera observação: conforme o passar dos anos, a presença do próprio documentarista se torna cada vez mais ativa e potencializa o documentário enquanto um dispositivo catalisador de conflitos. Desde o começo, temos os comentários de Guttmann nos guiando na narração em off. Depois, nas eleições de 2006, o diretor promove um encontro entre os quatro entrevistados, o que gera debates mais acalorados entre eles e acentua suas diferenças. Em vários momentos, ele parte para o confronto direto com os personagens e também se questiona sobre suas mudanças repentinas de perspectiva.
Nesse sentido, o grande trunfo de “Tudo é Tempo” é apontar as contradições de seus próprios protagonistas, ocupando um lugar de registro de memória para eles mesmos. Não à toa, na última entrevista com o diretor, Cristiane lamenta pelo fim do experimento ao se dar conta de que o documentário cumpria um papel na sua vida ao lembrá-la continuamente do que havia acontecido nesses anos todos. Não há um diagnóstico final e definitivo do filme sobre a política brasileira ao final dessa jornada, mas ao menos fica no ar a questão sobre o papel meramente transitório e passageiro das eleições na vida das pessoas e qual a força da democracia se a nossa memória política for tão frágil quanto aparenta ser.
“Tudo é Tempo” integra a Mostra Competitiva de Longas-Metragens do 59º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro.













