Através da Sacada, curta de Rondônia da diretora Ana V. de Araújo, é, acima de tudo, um trabalho curioso. Caprichando na atmosfera, o curta se constitui em uma experiência sem muito estofo emocional, mas que mantém a atenção ao lidar com elementos díspares e estranhos na sua narrativa.

O curta começa com um letreiro que nos situa no terreno da ficção científica: aparentemente estamos em um futuro onde contato com luz solar provoca terríveis queimaduras nos seres humanos – ecos das mudanças climáticas? O filme deixa em aberto, pois o texto também fala de demônios, portanto deixando aberta a porta para uma possível explicação sobrenatural… Enfim, nesse cenário, acompanhamos um homem idoso e sozinho (vivido por Laércio Alves Costa) enquanto vive sua rotina e realiza seus afazeres domésticos. Ele então começa a espionar para fora do seu apartamento, especialmente a vizinha da frente (Ticce Carias).

Os elementos fílmicos são usados para criar a atmosfera desse mundo futurista onde nosso protagonista não tem nenhum contato humano, embora pareça ansiar por ele. O filme tem um trabalho de som expressivo, com ruídos diegéticos intercalando com uma trilha musical que se destaca. Quando o homem espiona a vizinha com binóculos, da sua sacada, a cena é composta de fotos estáticas ao som de uma trilha de violinos dissonantes. O efeito é desconcertante, mas estranhamente bonito quando se repete nos momentos finais do curta.

Porém, a grande qualidade do filme é o trabalho de fotografia de Vicente Neto: Através da Sacada mostra um mundo de um preto-e-branco contrastado, e as imagens criam um clima claustrofóbico dentro do apartamento do homem, com um momento de respiro na cena em que ele sai de casa. É um curta de visual muito interessante, onírico e bastante atmosférico.

Como história, o filme apresenta apenas um fiapo de linha narrativa e deixa para o espectador preencher as lacunas restantes. Para um curta de poucos minutos isso não chega a ser de fato um problema, mas talvez o filme atingisse mais o espectador, para além de um mero exercício de estilo, se fornecesse um pouco mais dos personagens, se soubéssemos ao menos um pouco sobre o idoso. Mas a opção da diretora é mesmo pela atmosfera e o mundo curioso que ela cria para o espectador.

No fim das contas, Através da Sacada é mais criativo e curioso do que propriamente instigante ou mesmo “bom”, no sentido clássico do termo. O curta busca uma quebra de padrões narrativos e no processo resulta com algumas noções intrigantes, que apontam para um nome do cinema rondoniense que, aparentemente, vale a pena acompanhar.