“Flores Secas” traz uma das maiores armadilhas para um curta-metragem: tentar ser um longa. A grandiosidade proposta pelo melodrama de época dirigido e roteirizado por Arnaldo Barreto atira para tantas possibilidades que termina deixando lacunas enormes pelo caminho.

A produção amazonense selecionada para o Festival Olhar do Norte 2026 já começa dando indícios deste aceno a uma escala grandiosa: uma personagem de vestido branco correndo em câmera lenta no meio da floresta seguida de uma cena com uma embarcação a remo com seis pessoas com uma moça grávida ao centro. Planos abertos para captar a força da natureza com o drama na mesma proporção daquelas pessoas aliado a uma trilha de melodia indígena. Não demora muito um drone capta um plano zenital de uma embarcação no meio do rio ao som de uma voz empostada de um locutor de rádio das antigas trazendo a notícia de uma cheia devastadora na região.

Para quem não conhece o potencial do audiovisual nortista, não duvido que a impressão inicial impacte pela beleza estética da fotografia da dupla Bruno Pereira e Williams Ferry e precisão do trabalho de figurino de Pyter Barreto. Por outro lado, a mesma plasticidade acaba parecendo uma ornamentação mais bonita do que propriamente contribui a favor da narrativa.

Apesar do dinamismo oferecido pela montagem nunca dar uma sensação de cansaço pelo ritmo acelerado dos acontecimentos, o drama apresenta mais protótipos de personagens do que figuras realmente desenvolvidas com suas singularidades e relações entre si bem estabelecidas. Intérprete da zeladora da casa da família, Rosa Malagueta, por exemplo, fica relegada a expressões de temor e susto, quase como uma entidade de premonições de notícias negativas. Praticamente entra muda e sai calada. Já Isabela Catão também pouco pode fazer com um papel mais interessado em criar um antagonismo com a protagonista do que em entendê-la em um contexto de clara violência sexual ao que é obrigada a viver para conseguir salvar a si e ao filho mais novo.

Neste sentido, aliás, Flores Secas parece tão preso ao melodrama que cega diante da problemática figura masculina vivida por Adriano Rodrigues. Ao colocar a protagonista interpretada por Vanessa Pimentel como uma víbora capaz de destruir o barquinho da pobre criança, demitir a zeladora da casa intempestivamente e do ato final trágico, o filme acaba por reforçar uma imagem de uma mulher descontrolada pelo fato de não pode ser mãe e não se sentir desejada pelo marido. A construção efêmera do relacionamento dos dois, resumida em pequenos momentos ao longo do filme, reforça esta sensação em vez de criar um cenário mais amplo e complexo. E no fim de tudo, há um discurso sobre a resistência indígena.

Com tantos personagens e pretensões temáticas, Flores Seca não consegue dar conta de praticamente nada que aspira. Para piorar, ao ficar pelo caminho, o filme de Arnaldo Barreto abre leituras que acredito que, talvez, não fossem as planejadas inicialmente. É a armadilha do curta que sonhou em ser longa.