Responsável por usar a gastronomia como uma manifestação cultural de cada lugar, Anthony Bourdain explorava as histórias e pessoas através de cada prato. Com um olhar único, ele relatava suas vivências e experiências através de programas de televisão como No Reservations e Parts Unknown e seu livro Cozinha Confidencial. A história de Bourdain, ganha um novo capítulo, a cinebiografia Tony, que assertivamente decide não fazer um resumo da sua vida, mas desenvolver suas descobertas e amadurecimento no início de sua vida adulta.

Baseado em apenas alguns capítulos iniciais do livro Cozinha Confidencial, o filme foge da armadilha das cinebiografias atuais: criar um resumo de toda a vida da pessoa, focando mais na fase pública da pessoa. O longa é totalmente o oposto, traz um Anthony Bourdain mais jovem, desconhecido e um recorte específico de sua vida, o verão em 1975 em Provincetown. Um momento que significa uma transformação ímpar na vida de Tony, em que sua jornada se constrói através de influências e da rotina de trabalho.

Dentro desse aspecto, o roteiro trabalha duas influências distintas na vida de Tony: o empregado Sal de Leo Woodall e do “Chef” de Antonio Banderas. Sal representa a inconsequência, o temperamento esquentado e da rebeldia pulsante da juventude enquanto o Chef trazia uma experiência irreverente e uma ligação forte com a religiosidade. Esses dois pólos norteavam a vida de Tony, impactando positivamente e negativamente sua história. Um reflexo narrativo disso é a diferença em como o protagonista abre uma concha de ostra com um e com o outro. Isso ajudava na evolução do arco do personagem, mostrando como as experiências e influências moldaram seu caráter.

Mergulhado nesses altos e baixos, Dominic Sessa acompanha todas essas etapas sem perder o investimento emocional. Com inteligência, ele transmite uma energia reprimida com arrogância e da necessidade de autoafirmação perante seus pais. Apesar disso, o ator consegue combinar um ar cativante ao Tony sem torná-lo antipático excessivamente, mas expor as fragilidades com nuances e equilíbrio. Por outro lado, sua atuação cresce mais com a presença de Banderas, que complementa essa dinâmica com a segurança da mentoria. Seu amor pelo ofício surge com a constância do trabalho, da presença dentro do ambiente e da leveza de um veterano.

O papel da cozinha também tem a sua importância nesse percurso. Ela ajuda no amadurecimento de Tony. A gastronomia é mais crua e trivial, servindo como um laboratório da vida. Cada dia normal acumula conhecimento, mas também uma quebra da realidade de Tony, em que ele entende a hierarquia das coisas na prática. Além disso, o restaurante é fundamental para uma ideia de comunidade. Diferente de um lugar moralmente exemplar ou saudável, a cozinha é uma metáfora sobre vida e dos desafios do cotidiano.

A sagacidade da direção de Matt Johnson é desenvolver algo íntimo e pessoal ao longa. A sutileza consiste em criar uma sensação de memórias e de aconchego. O ambiente de veraneio traz todo um frescor e suavidade. A tranquilidade também tem a intensidade do trabalho rotineiro, de saborear o processo de aprendizado. Antes da celebridade que Anthony Bourdain virou, Matt está preocupado em mostrar o nascimento dela e a fagulha inicial de toda essa trajetória. Ainda assim, ele toma liberdades criativas, colocando toques ficcionais para ter mais desenvoltura para contar a história.

O destino atua como uma peça-chave da narrativa. Numa atitude impulsiva de viajar até a menina que gosta, Tony embarca em uma jornada transformadora sem se dar conta disso. Onde menos esperava, ele encontra um propósito. A imprevisibilidade aparece como um elemento de mudança. O contraste surge que essa decisão vem da sua arrogância e graças a ela, Tony se encontra na vida.

Diante todos os anseios da obra, o romance destoa por parecer uma imposição para a história. Mesmo que ele reflita a uma extensão da vaidade de Tony, a relação dele com Nancy de Emilia Jones é a parte menos interessante, não pelos atores, mas pela artificialidade da situação. A função é ter uma parte romântica clichê do que contribuir para a trama de maneira mais efetiva.

No fundo, Tony não é sobre quem foi Anthony Bourdain, mas sobre sua autodescoberta. Sem querer mastigar a vida do biografado, o filme é um coming of age que pinta um retrato mais particular sobre pertencimento e descoberta. Mesmo que não seja uma cinebiografia fidedigna da vida real de Bourdain, ela conquista pelo espírito de se encontrar e de se reinventar.