Jonas é um dos personagens mais populares da Bíblia: um homem que passa três dias na barriga de um grande peixe e depois é cuspido por ele: vivo e inteiro. Para alguns, um filme chamado “Dentro da Baleia” pode remeter a essa história e elas até tem alguns pontos em comum como a fuga, estar dentro de um grande peixe e o processo de redenção. Brian Duffield (Ninguém vai te salvar) trabalha essas questões usando dois pontos de partida fundamentais: o luto e os traumas paternos. 

É interessante como o roteiro se constrói a partir dessas duas temáticas que vão se misturando e se confundindo conforme a trama avança. Acompanhamos Jay (Austin Abrams), um jovem mergulhador que está lidando com a morte do pai (Josh Brolin). Ele parte para um mergulho em mar aberto em busca de algum vestígio do corpo de Mitt, mas o improvável acontece e ele acaba no ventre de uma baleia, lutando pela sobrevivência. 

Melancolia e angustia do luto

“Dentro da Baleia” é inteiramente construído imbuído de uma atmosfera de melancolia, tristeza e a busca por compreender o seu lugar no mundo. A predominância das cores amarelo e azul já norteiam o quão soturno e melancólico é o tom que Duffield adota, considerando que o filme se aprofunda em discutir a relação entre pai e filho; passando por questões não resolvidas dentro de uma relação familiar desgastada, fruto de falha de comunicação. É instigante pensar como o grande animal serve como uma ponte entre aquilo que o pai almejava para o filho e o que o seu rebento conseguiu se tornar em resposta a cobrança excessiva e ao distanciamento emocional. 

O roteiro utiliza esses pontos para abordar a difícil batalha interna do luto familiar. Mas me incomoda como esse registro é carregado por culpa, como se um filho que possui uma relação de proximidade e cumplicidade com seus pais, também não pudesse carregar sentimentos ambivalentes com a sua morte. Apesar desse desconforto, penso que a escolha de endossar o drama familiar é um aspecto positivo para a narrativa de Duffield e Daniel Kraus, especialmente por utilizarem a memória como o motor de adensamento e conexão com o protagonista, ofertando complexidade as suas escolhas e mostrando o amadurecimento profissional de Austin Abrams.

As lembranças, além de nos situarem sobre a relação entre as personagens, ocupam lacunas dramáticas e tecem a narrativa de forma compreensível. Assim, as cenas e situações não são jogadas ou montadas por acaso, elas possuem uma significação direta com a mensagem que a trama deseja passar, especialmente em relação ao luto e ao daddy issues. 

O terror cósmico

Se as temáticas centrais nos levam a um clima de angustia, a escolha por contar a narrativa no mar abriu espaço para um outro tipo de ambientação: a do horror. Trilha sonora, fotografia e direção de arte são três elementos importantíssimos para a cenografia oceânica requerida em “Dentro da Baleia”. Lembro de ter visto uma entrevista em que alguém afirmava o quão desconhecido é o mar, a frase se encaixa bem na proposta do filme, uma vez que a direção nos leva a ser tragados junto com Jay.

Nessa perspectiva, a trilha sonora contribui como um golpe que você não sabe de onde vem. Antes mesmo de conhecer o antagonista da produção, o som nos mantém alerta e causa pânico. É uma sensação estranha e rica, provando que se a trilha é bem feita, você não precisa ir para um cinema 6D para sentir a cadeira tremer. Ao seu lado, quem também tem participação nessa imersão promovida por Duffield é a fotografia de Aaron Morton (A morte do demônio). Uma de suas maiores proezas é criar uma escala em que a pequenez do homem é visível e gritante, provando sua insignificância frente a natureza bruta e  selvagem.

As escolhas de planos e enquadramentos dão um tom de imersão e de claustrofobia, o uso de planos fechados e detalhes nos permitem ter um vislumbre pulsante do sofrimento físico da personagem, mas também de sentirmos um pouco do estranhamento e da repulsa que o ambiente retratado evoca. Nesse sentido, é muito interessante perceber como o mar de “Dentro da Baleia” é muito próximo do espaço dos filmes de terror/ficção científica. 

A forma como interior da baleia — claustrofóbico, escuro, gelatinoso, hostil e aterrorizante — nos é apresentado, desperta dois itens interessantes: a semelhança com os monstros alienígenas e o tanto que desconhecemos os animais marinhos. A direção realmente embarca no desconhecimento das profundezas marinhas para gerar estranhamento, ao mesmo tempo em que nos traz animais conhecidos como polvos, águas-vivas e orcas. Assim, o debate é guiado para outro rumo: a atmosfera de filme de terror espacial.

Há um paralelo muito interessante entre Jay e personagens como Ripley (Alien) e Ryan Stone (Gravidade), assim como elas, o personagem de Austin Abrams luta de todas as formas pela sua sobrevivência, além de que há rimas visuais feitas tanto com Aa franquia Alien quanto com Gravidade, quando Jay luta contra o polvo, por exemplo, ou em sua cena final com a baleia. Nesse aspecto, é importante ressaltar a direção de arte. A maior parte do filme se passa em um grande labirinto claustrofóbico e é possível notar como toda a construção sufocante e nojenta conta com o mínimo possível de CGI, especialmente quando o personagem toca as paredes internas da baleia ou está em contato com algum outro habitante de sua flora intestinal.

“Dentro da baleia” é um filme surpreendente. Ao mesmo tempo em que se apresenta como uma batalha pela sobrevivência, é um drama familiar bem composto, alicerçado em problemáticas reais e universais; tudo isso atravessado por um ambiente hostil e assustador, que distancia a narrativa de ser uma cópia genérica da história de Jonas. Só posso dizer que precisamos continuar atentos aos trabalhos de Austin Abrams.