“Cara-de-Barro” é essencialmente um thriller. Essencialmente um thriller de um anti-herói. Um thriller de um anti-herói, do universo Batman, da DC Studios.
E mais ainda, com roteiro assinado por Mike Flanagan. Esse dispensa apresentações!
Tá passada?
Um panorama básico: Matt Hagen (Tom Rhys Harries) é um ator em ascensão em Hollywood que tem, além do seu talento, a beleza e a juventude como trunfo. Indicado ao Oscar, o rapaz parte para uma balada e se enrabicha por uma moça que é namorada do grande gângster local, o temido Markos Szabo (David Dencik). Pensou que para por aí? Esse mesmo gangster desfigura o rosto do “american sweetheart” da vez, acabando com sua carreira. Hagen vê na cientista Caitlin Corr (Naomi Ackie) a sua chance de voltar ao normal, quando decide se tornar cobaia de um novo experimento celulares regenerativas.
A direção de James Watkins (do remake “Não Fale o Mal”, 2024) sinaliza uma nova direção da DCU, agora, capitaneada por James Gunn. O filme é um suspense que exala a energia de Flanagan, mas sem perder a essência da DCU e isso não é uma crítica. É um combo da abstração e violência que dão a tônica nessa nova franquia.
O que me chamou atenção da direção de Watkins é que ele não teve medo de extrapolar os limites. São sequências que podem ser consideradas bizarras, perturbadoras e violentas, mas em momento algum soa gratuito. Tudo faz parte do contexto para narrar a origem de um dos vilões mais icônicos do morcegão. Afinal, Gotham City não é apenas do Batman.
O que nos leva a outra questão: Gotham não é apenas um território, mas faz parte da narrativa, um personagem à parte que zela, mas também comete sacrifícios. É uma cidade gélida, suja, obscura, corrupta, ao mesmo tempo que tem riqueza e luxuria. Elementos facilmente corruptíveis a qualquer ser humano comum.
O fato de Hagen sucumbir aos experimentos não diz somente sobre ele, mas também às pressões da beleza, dos padrões estabelecidos, dos padrões de vida e identidade. E quando essa vida sai do mais absoluto nada, vence e perde tudo, há uma genuína revolta. Nesse sentido, nos compadecemos com esse anti-herói muito humano, agora mutante, na perda do seu eu e viver e pertencer à cidade.
Não podemos esquecer que “Cara-de-Barro” é um filme introdutório, deixando no ar o que podemos esperar das próximas produções desse universo. Por isso, a perturbação emotiva que Watkins imprime se faz necessária. Não é um filme perfeito, as cenas de ação e das transformações são eficazes e dão um grande efeito nas telonas. Mas, ao meu ver, o que pecou bastante foram alguns diálogos que pareciam feitos por alunos do ensino médio, bem infames, deixando a experiência menos proveitosa.
No fim, o body horror e monstruosidade de “Carra-de-Barro” transita entre as emoções, as perturbações e sobre esse corpo que já não é mais um corpo, inserido em uma cidade com Gotham que sabe como poucos produzir seus próprios monstros em uma cidade sombria e violenta.














