Nem toda mulher tem o desejo de ser a mãe. Assim como nem todo o homem é fã de futebol e as duas coisas são totalmente normais. Como diria um meme frequente no Twitter, esse sim é o tipo de coisa que deveria ser normalizado. Infelizmente, no entanto, Hollywood parece ter um pensamento conservador demais para enxergar isso. É o que acontece em “Saint-Francis”, longa-metragem de estreia de Alex Thompson.

O filme acompanha Bridget (Kelly O’Sullivan), uma mulher de 34 anos que passa a se questionar sobre as escolhas que fez na vida. A questão é que essas dúvidas surgem a partir do momento em que várias pessoas ao seu redor passam a engravidar e ter filhos.

Nos últimos anos, surgiram produções que apresentaram o lado real da maternidade, distanciando-se da versão romantizada vista muitas vezes em tela. Filmes como “Olmo e a Gaivota” (2004), “Tully” (2018) e a série “Turma do Peito” mostram o quanto os primeiros anos de existência de uma criança afetam a vida da mãe e do casal drasticamente. E, convenhamos, ter um bebê ou mais de uma criança em casa não é uma tarefa fácil; pelo contrário, exige esforço, paciência e muita inteligência emocional – que o diga esses meses de quarentena.

Kelly O’Sullivan, que também assina o roteiro, e Thompson, no entanto, não parecem concordar muito com isso. É só perceber a forma como “Saint Francis” é narrado: o grande plot da trama é a maternidade e como Bridget a enxerga em cada estágio de seu verão. Nessa construção fica evidente as transformações que a protagonista passa conforme avança seu relacionamento com a menina Francis (Ramona Edith Williams), a santa do título.

As cores nos ajudam a ter essa percepção. De acordo com a proximidade entre ambas, as cores de seus figurinos vão se harmonizando; ao mesmo tempo em que a aversão da moça com crianças e filhos vai se esvaindo. Em um diálogo com a mãe, Bridget comenta que não quer ter filhos; a mesma coisa é repetida para Jace (Max Lipchitz), o rapaz com quem se relaciona e engravida. Os dois também apresentam mentalidades divergentes quanto a gestação: enquanto a mãe a confronta e a aconselha a ser mãe e correr atrás disso logo devido a sua idade, Jace apoia a escolha dela em abortar e fica ao seu lado em todos os momentos.

Quase ‘Grande Menina, Pequena Mulher’

O incômodo em tudo isso é que a protagonista reconhece que não está preparada para a maternidade e não tem o desejo de ser mãe um dia. Mas, em cada fase do verão, surge alguém para mostrar que seu ponto de vista está turvo devido ao momento em que está vivendo. Prova disso é o bebê Wally que não fica comportado no colo da mãe, apenas no de Bridget.

No primeiro momento, pensei que o filme seguiria um caminho semelhante a “Grande Menina, Pequena Mulher” (2003), comédia com Brittany Murphy, mas, a linha adotada pelos realizadores é mais pé no chão e realista. Bridget tem noção que, aos 34 anos sua vida, está sem rumo. A prova disso é a cena em que busca alternativas para o que ainda pode fazer com essa idade. Seu conflito é consigo mesma e as coisas que não consegue dar andamento.

Descompromissada, suas atitudes se assemelham a de uma adolescente, no entanto a cena em que está no confessionário mostra que seu maior desejo é ser aceita e dar orgulho aos outros. E isso é determinante para que perceba o que realmente vale a pena em sua vida.

Apesar de promover a maternidade como solução, a pequena Francis não cai no clichê de ser a criança muito madura para sua idade. Ela faz birra, quebra os brinquedos, chora e defende os amigos quando necessários. Sua atitude infantil é a responsável pela evolução das mães e para o despertar da protagonista.

“Saint Francis” é eficaz em mostrar os dramas de alguém que se perdeu na vida e não sabe qual rumo seguir. Infelizmente, a trama incomoda por ter uma visão ainda conservadora da maternidade como solução para a vida de uma mulher. Se apenas ficasse em Bridget encontrar o seu caminho, o filme seria bem mais interessante do que já é.

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