Vem chegando a noite do Oscar e com ela, o fim da temporada de premiações. Para todo cinéfilo, as cerimônias anuais oferecem a mesma bem-vinda regularidade que as estações do ano ofereceram aos primeiros hominídeos agricultores. Pode-se até desprezá-las, mas é secretamente reconfortante poder contar com as noites preguiçosas em frente ao televisor, assistindo aos humanos mais ricos do globo se auto-congratulando.

Motivo pelo qual o Oscar, mesmo trazendo uma ansiedade eufórica, também vem acompanhado de certa melancolia, um prenúncio da ressaca por vir. Para nós brasileiros, seria ótimo se cada temporada pudesse contar com o mesmo clima de Copa dos dois últimos anos. Infelizmente, isso depende tanto da qualidade da safra anual, como — mais importante — das politicagens, da máquina de lobby e dos acordos de distribuição por trás dos nossos filmes. 

Nem sempre se pode contar com um “O Agente Secreto”, mas o Oscar seguirá firme e forte, com suas mazelas e benesses, oferecendo um tantinho para cada público. Há os apostadores de plantão, que acompanham os sites de previsão de estatuetas como se acompanha boletins meteorológicos. Há também os corações que palpitam em síncope pelos vestidos e trajes de gala, que ornam celebridades de beleza escultural e talento eventualmente faltoso. E há, é claro, os que querem torcer pelos seus filmes e artistas favoritos. Mas, como não aposto, não gosto dos filmes indicados e tenho o mesmo senso fashion de uma carola da igrejinha de bairro, meus prazeres residem noutras bandas.

Esta é uma lista desses prazeres, bem como do que de mais desgostoso o Exmo. Sr. Oscar tem para nos oferecer.

Melhores coisa

3. A tela de reações

E, quando o envelope finalmente é aberto e o vencedor, anunciado, como reagem os perdedores? Quem salta da cadeira para aplaudir efusivamente seu colega de profissão, e quem sequer esconde a cara de ranço? Figurinha carimbada de toda premiação que se preze, a tela de reações é imprescindível para nós, fofoqueiros de plantão. Os brasileiros, afinal, sabem que devem prestar bastante atenção a essa tela: é ela quem determina quais atores têm direito a um CPF, e quais estão banidos da Terra brasilis (Tilda Swinton aplaudindo Fernanda Torres no Globo de Ouro = brasileira honorária; Oscar Isaac com cara de besta diante da vitória de Wagner Moura = traidor do movimento latino).

2. Discursos emocionados

Seu nome é chamado e você sobe ao palco, mas é tomado por tão grande emoção que mal pode falar. A cena é bonita — e, em alguns casos, certamente calculada. Afinal, há aqueles que, ao longo de toda a temporada, vêm ensaiando seus discursos obstinadamente, seja nos palcos, seja na frente do espelho. O resultado é estranho: o grande momento de sua carreira acaba parecendo meramente protocolar. Mas há também os ganhadores que, do alto de sua emoção, nos presenteiam com momentos verdadeiramente inspirados. Michael B. Jordan, que pode muito bem surrupiar a estatueta das mãos do irritante Timothée Chalamet no domingo, acabou de ter um baita momento no palco do SAG dias atrás. O mesmo pode ser dito do discurso de Delroy Lindo, ao aceitar o prêmio de “Melhor Elenco” por toda a trupe de “Pecadores” — são discursos que podem muito bem ter cimentado a vitória dos dois atores amanhã.

  1. Barraco, confusão, gritaria:

O caos no palco entre “Moonlight” e “La La Land”. O tapa na cara de Chris Rock desferido por Will Smith. O peladão bigodudo que invadiu a cerimônia de 1974. Em uma premiação que se orgulha de sua pompa e sobriedade, tais cagadas homéricas são raras, é verdade. O que não significa que não aconteçam — e é nosso dever, crentes que somos no caos e no mafuá, torcer pelo pior a cada ano.

 Piores coisas

3. A indicação de todos os anos de Diane Warren

Dezessete: esse é o número de indicações a Melhor Canção Original que a compositora Diane Warren traz no currículo. Motivo de celebração, certo? Seria, se a esse ponto o caso não parecesse mais uma piada de mau gosto. Ano após ano, Warren segue sendo indicada por seu trabalho absolutamente esquecível em filmes no máximo medíocres. É possível que sua última boa indicação tenha sido em 1999, como uma das compositoras do hit “I Don’t Want to Miss a Thing”, de “Armaggedon” (embora “‘Till It Happens to You”, com Lady Gaga, também seja uma canção digna). De lá para cá, é só tristeza. Ou alguém aí tem “The Journey”, “Io Si” ou “Dear Me” — sua última atrocidade — em alguma playlist?

2. Discursos constrangedores

Enquanto a emoção e a autenticidade podem tornar um discurso inesquecível, não há nada mais terrível que assistir a um discurso constrangedor. Lembremos de exemplos recentes: a auto-indulgência de Adrien Brody ao ganhar sua segunda estatueta de Ator, a cantoria dos compositores franceses ao receberem a estatueta de canção por “Emilia Pérez”, o tédio escancarado de Frances McDormand ao ganhar seu prêmio por “Nomadland”… Um discurso desses pode não só manchar a sua vitória, como abrir caminho para nossas mais incansáveis implicâncias pelo resto da carreira desta ou daquela pessoa.

  1. Os ganhadores

É verdade que não há nada mais pessoal do que nossos respectivos gostos — o que já torna toda e qualquer premiação, por definição, em uma ocasião bastante boba. Mas o Oscar, como esse grande balizador do Bom Gosto Oficial da indústria, guarda inúmeros pecados no seu baú. Fiquemos apenas com as mediocridades recentes: alguém aí anda assistindo a “No Ritmo do Coração”? “Green Book”? “O Discurso do Rei”? “Nomadland”? Por Deus, será que “Crash” é qualquer coisa além de um eterno saco-de-pancadas? Não deveria surpreender que as pessoas que mais ganham dinheiro fazendo filmes são as menos confiáveis para escolher os bons filmes de cada ano. Motivo pelo qual podemos dispensar as penitências, caso você opte por desligar a TV no domingo à noite.