Nos minutos iniciais de Fjord nos deparamos com uma família se despedindo para o dia. Há algo tenso no ar: você percebe que a filha, Elia (Vanessa Ceban), está abraçando os pais não por um afeto trocado, mas pelo lembrete da obrigação. O que houve antes disso? Não sabemos e nem saberemos porque este não é o interesse de Cristian Mungiu, diretor romeno, dono de uma Palma de Ouro por “4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias” e, agora, por este projeto protagonizado por Sebastian Stan e Renate Reinsve.
Mungiu, nesse primeiro momento, quer nos preparar para as coisas que acontecerão no decorrer da narrativa. Para isso, é necessário observar como a natureza humana concentrada nesse núcleo familiar e na pequena vila norueguesa se comporta. O roteiro então nos faz observar o lar frio e religioso que Mihai (Stan) e Lisbet (Reinsve) construíram para os cinco filhos em comparação ao mundo que fica fora da casa deles. É a partir dessa perspectiva que uma falsa sensação de moralismo e a crítica a criação de filhos rígida encontram espaço para discussão dentro de Fjord.
A escola se torna o espaço em que Elia e seu irmão podem compreender o mundo que existe para além das amarras religiosas puristas e sufocantes que existem dentro do seu lar. Nesse sentido, Fjord toma ares muito semelhantes A Caça, de Thomas Vinterberg, em que o mistério moral instaurado é muito mais interessante do que qualquer suspense que possa haver. Um incidente na escola faz com que o modo como Mihai e a esposa lidam com os filhos seja questionado e os tirem do seio familiar enquanto os pais são investigados por abuso. A situação nos leva a um espiral de preconceito religioso e cultural, mas também de conservadorismo e presunção.
Mihai e Lisbet chamam atenção pela perspectiva diferente e unilateral que dão aos filhos. Mas isso é escolha familiar, não? Se um pai decide não dar tela aos seus filhos, deve ser recriminado? Se um pai não imputa que certas brincadeiras são exclusivamente de um gênero, isso o torna o melhor pai do mundo? Há uma complexidade na discussão levantada por Mungiu quando olhamos cada núcleo familiar em perspectiva e nos indagamos o que torna um mais adequado do que o outro. Qual a criação de filhos ideal e quem a alcançou? Acredito que essa seja um dos questionamentos abordados quando a hipocrisia do vilarejo se expõe.
Algo que chama atenção é que o roteiro não busca nos oferecer um culpado pela situação instaurada, mas sim exemplificar ações e consequências e, dessa maneira, conduzir o público a reflexão sobre a polarização, uma vez que é esta ideia preconceituosa de que a a cultura local é superior a do estrangeiro que induz os conselheiros escolares a assumirem uma postura combativa sem investigar ou tentar compreender o que se passa nesse clã. Não estou afirmando com isso que o casal é inocente, mas que há uma complexidade efervescente quando pensamos nessa família cristã ortodoxa e tradicional que vai morar numa vila agnóstica. Há costumes, comportamentos e culturas diferentes; e, se há algo que fira os direitos humanos — ou o eca —, a atitude pedagógica não deve ser a abordagem truculenta apresentada aqui.
Longe de determinar lados, a narrativa nos mostra graus de complexidade nesse ambiente familiar. Admito que a postura de Elia me é incomoda na maior parte do tempo em que ela aparece, mas Mihai e Lisbet também não geram simpatia e, neste aspecto, é preciso salientar o precioso trabalho de Stan e Reinsve; ambos trazem uma interpretação comedida, na qual a maior combustão ocorre internamente gerando em Stan uma postura tensa, preocupada e que amedronta diante de um mero olhar. Sua linguagem corporal é importante para o escalonamento que as discussões suscitadas por ele ganhem força e seu posicionamento como líder familiar, espiritual e cidadão em busca de criar seus filhos rompam as barreiras do vilarejo em que estão.
Quanto a Reinsve, vejo como uma interpretação diferenciada de tudo que já acompanhei da atriz. A norueguesa traz uma composição sutil e silenciosa, como uma mulher resignada a um papel de submissão dentro do seu lar. Ela é por natureza uma cuidadora, algo que se estende para a profissão que ocupa e a resignação e zelo que tem por aqueles a quem precisa oferecer seus cuidados. Todavia não há afeto presente, o que torna tanto Mihai quanto Lisbet personagens difíceis de agradar ao público.
Por um lado, reflito como isso é interessante para que não se tome um lado irrestrito sobre essas figuras paternas, mas, ao mesmo tempo, penso na coragem de mantê-los fiéis aos seus ideais e fundamentos quando se poderia humanizá-los para que o público concordasse com suas posições. Longe de serem heróis ou vilões, eles são pais que buscam criar seus filhos da maneira como acreditam serem a correta, ainda que possa ser retrógrada ou fundamentalista e é nesta posição retumbante que está um dos maiores trunfos do filme de Mungiu, porque ele não tenta facilitar para o seu público, mas sim afundá-lo nesta complexidade tangível e vital para “Fjord”.














