Dirigido por Elaina Ferreira, “Viagens Para o Interior: Vila do Cocal” traz a história do jovem artista paraense Josué Castilho França. Na primeira vez que o vemos, antes mesmo de o curta nos informar seu nome, vemos esse artista dançando e fazendo uma performance num porto à beira de um rio, numa típica paisagem amazônica, ao som de uma música do pop-brega paraense.
O fato é que logo descobrimos que Josué é multifacetado: ele trabalha com música, artes performáticas e poesia, e veio da comunidade ribeirinha Vila do Cocal, na Ilha de Marajó. Como ele próprio anuncia em uma narração no início, às vezes uma pessoa precisa viajar para o seu interior para descobrir a si mesma.
O documentário mostra como se deu esse processo de autodescoberta. Acompanhamos depoimentos de familiares de Josué falando sobre a sua infância e como ele sempre se destacou com seu amor pela arte. Intercalados com essas falas, vemos cenas de performances do artista, ora fazendo alusão ao seu próprio nascimento, ora aparecendo em paisagens amazônicas em imagens performáticas.
Através dessas performances, vemos o eu-poético do artista, inserido dentro de uma tradição amazônica – numa dessas cenas, Josué lê um livro intitulado “Cultura amazônica: Uma poética do imaginário”. Nesse sentido, os sons e músicas também são importantes, tanto quanto as imagens: entre os depoimentos que vemos, os elementos audiovisuais acabam criando uma espécie de paisagem onírica do mundo interior do artista. São cenas que têm um efeito estético e emocional diferenciado.
Por exemplo, quando os familiares de Josué falam sobre quando ele nasceu, o artista aparece interpretando esse fato, enrolado numa espécie de membrana de tecido vermelho, de onde ele vai emergir. Os planos próximos e curtos, unidos na montagem, e o som, resultam numa representação ao mesmo tempo bonita e estranha, e num momento curioso do filme. O resultado escapa de se tornar uma espécie de videoclipe, e se destaca como uma visualização do interior de Josué.
O retrato que emerge é de uma pessoa inquieta que teve coragem de se assumir homossexual e se destacar logo cedo em seu meio. E que, de quebra, busca destacar em suas obras o contexto da sua origem e fazer desse início da jornada o ponto de partida para suas inquietações e realizações artísticas. “Viagens Para o Interior: Vila do Cocal” é um bonito filme, com belas imagens e que, em alguns momentos, consegue de fato uma proeza, acessar o subconsciente e o coração do seu retratado.













