Um dos mais celebrados episódios da trajetória de Os Sopranos na TV foi “Pine Barrens” da terceira temporada da série. Era o famoso episódio em que Paulie e Christopher tinham a missão de cobrar dinheiro de um russo duro na queda, e as coisas se escalavam tão absurdamente que os dois acabavam perdidos numa floresta coberta de neve, correndo risco de morrerem congelados. Se você viu esse episódio, provavelmente não o esqueceu.

Bem, “A Mula”, este oitavo episódio da quinta temporada de Better Call Saul, lembra “Pine Barrens”, ao menos em termos de história. A trama é a mais simples e básica da temporada até aqui: Saul é encarregado de ir buscar a grana da fiança de Lalo – sete milhões de dólares, que estão escondidos no meio do deserto. Mas imprevistos acontecem e então Saul e Mike se veem à deriva no deserto, carregando os milhões em duas pesadas bolsas, e sendo caçados.

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O deserto na visão de Vince Gilligan – não por acaso, o diretor deste episódio – é implacável. Jesse e Walter quase morreram lá quando o trailer ficou sem bateria em Breaking Bad. E depois Walter teve que arrastar seu barril de dinheiro por quilômetros de areia e vazio, já perto do fim da sua jornada. É como se os personagens tivessem que passar por provações no inferno, verdadeiras odisseias, periodicamente em ambas as séries. Pode-se fazer uma interpretação até mesmo mitológica do episódio, coisa do tipo bem contra o mal e o que acontece quando um homem opta pelo segundo e precisa pagar o preço.

Western: a terra dos mitos no cinema

E a condução do diretor também é inspirada. Quando Saul encontra os gêmeos no deserto para receber a grana, a cabeça dele é enquadrada entre os dois vilões de uma maneira tão perfeita que faria Wes Anderson sorrir. Gilligan também filma alguns momentos de ação incríveis no episódio e mantém a tensão, mesmo que nós tenhamos consciência de que os dois heróis do episódio vão escapar.

Mas é a jornada que importa, e é fascinante de se ver: ao longo do episódio o personagem Saul se revela pela ação. O sujeito que começa a jornada confiante na sua lábia – “soy abrogado”, ele diz para todos – é reduzido ao seu mais elementar e toma uma atitude desesperada para sobreviver. Porque é quem ele é, um sobrevivente. E agora, de fato, com os dois pés no mundo do crime.

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“A Mula” é um episódio cheio de ação, suspense – que cena entre Rhea Seehorn e Tony Dalton! E o encontro entre Kim e Lalo deverá ter consequências – e grandes momentos e algumas referências – a câmera entra pelo cano de uma arma reverenciando outra cena icônica de Breaking Bad. E reforça também a visão do seu criador: Tanto Breaking Bad quanto Better Call Saul são faroestes. Às vezes nos esquecemos disso, às vezes os próprios roteiros nos fazem esquecer. Mas de vez em quando, um episódio em ambas as séries nos puxa de volta para o deserto. Apesar das semelhanças superficiais entre estes episódios, a floresta gelada de “Pine Barrens” combinava com Os Sopranos, que afinal estava mais próximo do noir. O universo de Vince Gilligan é o do western, e o western é a terra dos mitos no cinema.

Talvez tenhamos visto neste “A Mula” o definitivo nascimento do mito de Saul Goodman.

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